• Coluna do Pádua: O poder do amor pela visão de dois autistas



    “O CASTELO DE VIDRO” OU: O PODER DO AMOR PELA VISÃO DE DOIS AUTISTAS 


    Olá, pessoal do site! 

    Este é um texto escrito em colaboração entre nós, Fábio (Aspie Sincero @aspiesincero) e Pádua, colunistas do site Vida de Autista. Esta será uma crítica sobre o filme “O Castelo de Vidro”, de 2017, bem como uma reflexão sobre os desdobramentos do filme. Da ótima conversa que tivemos, saiu todo o conteúdo que vocês lerão a partir de agora. 

    “O Castelo de Vidro” é um longa lançado em 2017, dirigido por Destin Daniel Cretton e estrelado por Brie Larson e Woody Harrelson. O filme reconta a história do livro autobiográfico da escritora e jornalista estadunidense Jeanette Walls. O filme toma certas liberdades narrativas e de roteiro com relação ao livro, o que é praxe em Hollywood, mas quando se trata de biografias, isso pode deixar as coisas... digamos... polêmicas, principalmente no que diz respeito às escolhas do diretor quanto ao desfecho da trama. Vale destacar o esmero técnico do longa, com uma direção inspirada de Cretton, atuações seguras e precisas, sobretudo de Harrelson e Larson, e uma fotografia inspirada, que faz excelente uso de seus cenários em perspectivas grande-angulares, produzindo visuais realmente deslumbrantes. 

    É um filme cujo roteiro não segue a linha habitual de narrativa, acompanhando a vida de Jeanette (Larson) através de duas linhas temporais que não apenas se interligam a fim de trazer a vida da personagem em construção, mas também estabelece um dos conflitos principais do filme, entre a vida caótica de sua infância e a busca por ordem em sua fase adulta. Na primeira, vemos a escritora adulta, prestes a se casar com David, um analista financeiro; já na segunda, a vemos em sua infância e adolescência, tendo de lidar com sua complexa e disfuncional família, sobretudo com o pai, Rex Walls (Harrelson). 

    Nesta segunda linha do tempo é que os aspectos mais interessantes da trama se desenrolam. Rex e Rose Mary (Naomi Watts) são pais cheios de amor para com os filhos, mas também extremamente controversos. Autênticos babyboomers, os pais tentam constituir uma estrutura familiar tradicional, na qual os desígnios do pai – o chefe - seriam sempre o norte da família, em uma alusão ao “American Way of Life” que rondava os Estados Unidos e o Mundo nos anos 1960. O pai é, contudo, o que se poderia chamar de “eterno sonhador”, por centralizar o sonho de vida e liberdade de sua família na construção da estrutura que dá nome ao filme. Homem de extrema inteligência, Rex cria os filhos num autêntico modo “freestyle” em relação aos modelos de educação vigentes – o que não deixa de ser uma ironia, e muito similar ao visto no filme “Capitão Fantástico”. A comparação é inevitável. 

    O problema é que, apesar de Rex querer ser este pai amoroso, cuidadoso e protetor, ele parece não lidar nada bem com responsabilidades. Por isso, está sempre envolvido em conflitos, seja em abstrações consigo mesmo ou em ocasiões literais com praticamente todos os que estão à sua volta. Durante o longa, são dadas pistas ao espectador sobre como e porquê Rex age assim: traumas de infância sob uma família igualmente disfuncional e uma mãe extremamente abusiva, associados a vícios crônicos em alcoolismo e tabagismo e os problemas com responsabilidade já citados, fazem do pai uma espécie de “força da natureza”, como um organismo a vagar pelos lugares sem um rumo certo, na intenção, ainda que vaga, de construir o tal Castelo de Vidro. 

    Rex e Jeanette são a “dupla dinâmica” que move a trama de “O Castelo de Vidro” de uma maneira tão desconfortável quanto perturbadora, através algumas das cenas mais perturbadoras do longa. Rex, quando começa a perceber que está perdendo a influência sobre os filhos, passa a agir de forma tão errática quanto violenta. Os filhos, por sua vez começam a se tornar muito mais uma antítese dos pais: cada vez mais ansiosos por estabelecerem eles mesmos os objetivos de suas próprias vidas à revelia do organismo que o pai havia constituído (referência à contracultura dos anos 1970 e ao movimento Yuppie dos anos 1980). Assim, graças às controvérsias que permeiam a vida e conduta dos pais, os filhos tiveram que aprender muito cedo na vida quais eram seus lugares no mundo, sem depender muito dos pais para isso. Jeanette é o ponto principal dessa antítese, e protagoniza com o pai alguns dos momentos mais tensos da obra, seja tendo de lidar com o alcoolismo do pai, a tensa convivência com a avó pedófila – relevada pelo pai - ou a falta de empatia da mãe. 

    O roteiro, porém, faz com que todo este complexo desenvolvimento de trama descambe em um drama convencional, cujo desfecho é extremamente discutível. O terceiro ato do filme se passa quase que integralmente na linha temporal da Jeanette adulta e aqui temos os resultados de todos os conflitos vividos pelos personagens principais. De uma queda de braço com o noivo de sua filha até um escândalo na festa de noivado, Rex se defronta com as consequências de suas atitudes como pai ao longo de sua vida. Jeanette, por sua vez, tem finalmente a conclusão de seu arco dramático da infância até a fase adulta, tendo passado pela perda da inocência, enfrentado e superado o remorso e, finalmente, entendendo quem de fato era, ao perdoar o pai por tudo o que havia passado. Uma mensagem bonita e adorável, que nos passa a ideia de que, no fim das contas, o mais importante é estar bem consigo mesmo e com sua própria história, e que não há mal no mundo que não seja possível perdoar, afinal, pai e filha no final das contas se amavam mais do que se odiavam e queriam preservar as coisas boas acima das ruins. O amor triunfando uma vez mais, apesar das dificuldades. 

    Este é um final que suscita um questionamento importante sobre o poder do amor. Afinal, que sentimento tão estranho é este, que faz até os piores e mais degradantes conflitos se tornaram “águas passadas de um passado distante e felizmente esquecidas em prol de um final feliz”? Para a extremamente lógica mente autista, isso é geralmente um mistério de difícil resolução. Como quase sempre operamos na lógica, nossa mente dificilmente acata esse tipo de falha na verossimilhança, provocado pelo poder do amor. Para nossa não-surpresa, em nossas conversas, constatamos que isso nada mais foi do que uma adaptação do filme para construir um final de história mais palatável a todos os públicos. Em seu livro autobiográfico, Jeanette Walls nunca escondeu ou amenizou os remorsos de sua infância e adolescência, ao contrário do que o final de “Castelo de Vidro” parece sugerir. Ao unir a necessidade de um final hollywoodiano com a vontade dos espectadores de verem um desfecho positivo, o diretor juntou a fome com a vontade de comer. Como diria Cazuza, “pequenas porções de ilusão e mentiras sinceras me interessam”. 

    Ao fim, “O Castelo de Vidro” é um bom filme, que favorece a reflexão sobre a vida, os obstáculos que enfrentamos e sobre quem somos, no final das contas. E que apesar dos problemas de verossimilhança, nos traz importante e necessária mensagem sobre perdão. Ainda mais nos dias de hoje. 

    Nota do Aspie: 7,0 

    Nota do Pádua: 8,0


    Sobre o autor:
    Meu nome é Pádua, tenho 27 anos e sou autista. Sou fotógrafo e amo o que faço! Nas horas vagas, gosto de escrever, pois considero uma atividade super divertida e produtiva. Aproveitem a coluna sem moderação!

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