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  • Coluna da Gabi: Uma autista na empresa

    Sabe aquele frio na barriga, aquele nervosismo bem na hora da entrevista de emprego? Sabe aquela vontade de sair correndo ao olhar em volta e perceber quantos candidatos estão ali competindo pela mesma vaga que você? Pois é, pouco mais de 1 ano atrás eu senti tudo isso e mais um pouco...

    Após ser dispensada em alguns processos seletivos, surgiu uma oportunidade que parecia surreal. Fui, mas fui sem esperanças, fui apenas por ir. Após realizar todos os testes, bem como a entrevista, já estava em casa refletindo sobre o que faria em seguida, e imagine qual foi minha surpresa ao receber a ligação informando que havia sido selecionada para a vaga! Um misto de espanto, alegria, medo... eu simplesmente não sabia o que estava sentindo.

    Com o processo de contratação finalizado, dei início a uma caminhada que não acreditava durar mais que o período de experiência proposto em contrato. As primeiras duas semanas foram horríveis. Todos sabemos que, independente do grau de autismo, todos no espectro precisam de adaptações nos mais diferentes aspectos, uma vez que todos somos diferentes e, por isso, temos necessidades e dificuldades distintas. Eu era uma novidade para a equipe, a qual ainda não estava preparada para lidar comigo. Foram momentos difíceis, dias longos e horas intermináveis. Eu era agitada, não conseguia me adequar ao ambiente, não permanecia sentada por mais de 10 minutos seguidos - em decorrência da agitação e impulsividade presentes em vários autistas - e não tinha segurança para realizar nenhum procedimento, embora soubesse que dominava a maior parte deles.

    Exausta de tentar e com 3 semanas de empresa, optei por solicitar meu desligamento da mesma. Contudo, fui encorajada a tentar novamente e assim o fiz. Cabe lembrar, que o incentivo é de extrema importância no processo de aprendizagem e adaptação dos indivíduos no Espectro. Quando cogitava a possibilidade de desistir, me lembravam que eu estava indo bem e que poderia continuar. Aos poucos e com bastante esforço de ambas as partes, fui me acostumando com a rotina, com os procedimentos, e o mais importante: a empresa foi se acostumando comigo, adaptando o que era necessário. Até mesmo evitavam barulhos desnecessários porque sabiam que poderia me incomodar, dada a sensibilidade auditiva presente no TEA.

    As horas, que antes delongavam-se, começaram a passar em um “piscar de olhos”, de maneira célere. Comecei a conhecer outros setores, outras pessoas e, quando percebi, já conhecia toda a empresa, onde era aceita exatamente como eu era. Confesso que amava alguns setores específicos, onde passava horas e horas após bater ponto, e nos quais conheci pessoas que me ensinaram inúmeras coisas e que se permitiram aprender sobre o autismo apenas para que pudessem me acolher. Assim, as 6 horas diárias não eram mais suficientes, eu não queria sair de lá.

    Após 10 meses, para meu melhor desempenho, foi necessário que eu fosse remanejada para outro setor. Equipe diferente, prédio diferente, trabalho diferente... Sim, tudo isso me assustou e novamente pensei em desistir. Foi quando, mais uma vez, me lembraram que eu tinha conseguido até ali, o que me deu forças para tentar. Para minha surpresa, a equipe parecia já estar pronta para me incluir. Alguns problemas em um primeiro momento como era de se esperar, mas nada sério. Continuaram adaptando tudo para que eu me sentisse bem, desde o meu horário, até o trabalho desenvolvido.

    O autismo se tornou uma causa coletiva na empresa.

    E como estamos hoje em dia? Sigo na mesma equipe, a qual segue se adaptando a cada dia. Respeitam minha acuidade auditiva, respeitam meu tempo, respeitam quem eu sou. Reconheço que trabalhar em uma empresa tão inclusiva é um privilégio que a maior parte dos PCD’s não tem, e serei eternamente grata por estar ali. Hodiernamente, seguimos na luta pela inclusão - e não apenas pela integração - no mercado de trabalho e na sociedade como um todo.​

    Nota da Dani: A Gabi não quis se expor com uma foto de rosto e a vontade dela foi respeitada. A foto no post é da primeira mesa da Gabi na empresa.

    Sobre a autora:
    Meu nome é Gabrielle Luiza, tenho 20 anos, diagnosticada com autismo atípico leve para moderado. Gosto de ler sobre vários temas, especialmente sobre filosofia, de trabalhar e ouvir música clássica. Quero ser advogada e atuar diretamente na defesa dos direitos das pessoas com deficiência. Sou muito boa com números e obviamente péssima com apresentações. Até mais!


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    Sinopse: Neste guia você não vai encontrar técnicas ou fórmulas mágicas, pois o que escrevi aqui são experiências reais e servem de base para que você entenda como meu cérebro autista funciona na prática. Aqui você será espectador e verá a vida através do olhar de quem sente na pele as mesmas sensações que você. Sempre com leveza e bom humor te ensino a não surtar nesse mundo onde a gente se sente um E.T.

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