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  • Coluna do Aspie: Reflexões em tempos de bullying


    Reflexões em tempos de bullying 

    Olá amigos,


    O assunto a ser tratado hoje é algo que infelizmente nos deparamos todos os dias: Preconceito.

    Como todos sabem, ou pelo menos como todos nós que lutamos pelas causas do autismo estamos trabalhando para isso, abril é o mês que marca a conscientização sobre o TEA. Logo nesse momento tão importante nos deparamos, mais uma vez, com um episódio de intolerância sem tamanho que veio a afligir tantas famílias. Duas pessoas, os quais não vou identificar aqui pois o intuito não é dar visibilidade a esses cidadãos e sim trazer uma reflexão sobre o ocorrido, rasgaram palavras de ódio e desrespeito não apenas contra pessoas autistas, mas também à pessoas com síndrome de down e até mesmo (pasmem) às crianças que lutam contra o câncer, durante uma apresentação em um show de comédia diante de uma plateia lotada.

    Para que possamos pensar um pouco sobre tudo isso, permitam-me aqui expor uma definição que pode nos ajudar a entender a situação.

    Normose: refere-se a normas, crenças e valores sociais que causam angústia e podem ser fatais, em outras palavras, comportamentos normais de uma sociedade que causam sofrimento e morte. Nesse sentido, é comum justificar a manutenção de um comportamento não saudável por ser normal, algo que "todo mundo faz".

    Agora vamos ver o porquê dessa justificativa ser uma falácia e não se sustentar, trazendo apenas malefícios a sociedade quando tal comportamento é perpetuado.

    Em uma analogia simples, imaginem, ou para quem nasceu na década de 80 ou antes apenas lembrem, como as pessoas fumavam em ambientes públicos e fechados, como restaurantes, aviões, empresas, etc. Ou pensando em outro exemplo prático, como não se usava capacete para andar de motocicleta pois não existia obrigação para tal ato. Podia-se afirmar até hoje que, seguindo os exemplos citados, a proibição de fumar naqueles locais ou obrigar o uso do capacete, seriam atos de cerceamento de liberdade ou em outras palavras formas de privar o cidadão de escolhas individuais, afinal, se alguém não gosta de cigarro que não vá onde estão os fumantes ou que ao não fazer uso do capacete, só quem se prejudica é a própria pessoa que fez a opção de não usá-lo.

    Mas o fato é que a sociedade muda e mais importante, ela tem que mudar! Difícil encontrar hoje quem defenda fumar ao lado de uma criança num restaurante ou que não entenda que acidentes de trânsito são questões de saúde pública e que tanto proteger-se como também proteger outras pessoas diz respeito a todo mundo e não apenas a si próprio.

    Indo um pouco mais longe na história (nem tão longe assim), podemos citar a escravidão, onde tratar outro ser humano como inferior e obrigar a servir, em condições degradantes, os mais abastados da sociedade era considerado “normal”.

    Se até hoje mantivéssemos o conceito rígido de aceitação dessas situações e de tantas outras que poderia citar aqui, estaríamos vivendo em um mundo sombrio. Porém, a humanidade, tanto numa questão individual como coletiva tem a obrigação de crescer, melhorar, evoluir!

    Claro que essa evolução não acontece da noite para o dia e por isso é necessário que hajam vozes que se levantam e se oponham as normoses do cotidiano. Muito comum a justificativa das pessoas que cometem atos repugnantes como foi o caso desses dois “comediantes” de que hoje em dia é tudo “mimimi”, que o politicamente correto é chato ou que isso é arte e liberdade de expressão.

    Muitos escravagistas diriam que era “mimimi” de negros reclamarem dos seus “donos” sendo que os seus senhores lhe davam tudo que precisavam e ainda iam mais longe dizendo que abolir a escravidão só levaria as pessoas a morte por fome. Reclamar do politicamente correto também não serve pois podemos apenas esquecer o termo politicamente e lembrar que existe o correto e o incorreto e nunca será normal agir de maneira preconceituosa com alguém, independentemente de qualquer contexto. Reforçando, o mundo muda, tudo e todos mudam juntos. Piadas que eram aceitas há 10 ou 20 anos, hoje não são mais, assim como todas essas situações que foram citadas durante todo esse texto, e afirmar que sempre foi assim não cabe pois se não o bom senso é capaz de permear certas atitudes, a lei é! E nunca é demais lembrar que é crime o preconceito contra deficientes, assim como qualquer tipo de preconceito.

    Claro que não esqueci aqui de falar sobre arte ou liberdade de expressão. Fazer arte é lindo e ninguém é contra isso. Há até quem diga que a arte não tem limite e digo a todos que concordo plenamente. Não se pode limitar a arte nem tampouco o artista, mas o fato aqui é que a apresentação dita comédia que foi exposta, não se trata de arte e é preciso definir bem o que é ser um artista. A arte visa trazer um bem a sociedade e não vi em nenhum momento de tal apresentação algo que trouxesse benefício, pelo contrário, vi apenas maldade despejada sem a mínima consideração pela condição humana.

    Nunca, em nome da arte, pode-se passar por cima da dignidade. Imagine que numa peça de teatro fosse permitido que uma pessoa de 40 anos fizesse sexo explícito, ou melhor dizendo já que não existe sexo com crianças, abusasse de uma pessoa de 8 anos de idade. Seria arte ou pedofilia? Então o que se busca limitar aqui não é a arte e sim a virtude do que é ser humano.

    Por fim, mas não menos importante, que fique claro que não sou nem nunca serei contra a liberdade de expressão. Sempre apoiarei o direito de qualquer um se expressar. O que pondero aqui é o ato de que ter liberdade para expressar não extingue o fato de que a pessoa tem que responder pelo que expressou dentro dos critérios da lei.

    Para concluir, não posso deixar passar batido os risos que se ouviam do público presente na apresentação ao fim de cada fala maldosa desferida. O que mais explica, senão a normose, o fato de duas pessoas estarem cometendo um crime de preconceito e intolerância e uma plateia toda gargalhando, sem que ninguém levante e contraponha-se?

    Normose é um termo que foi forjado por Jean Yves Leloup (filósofo) na França, e por Roberto Crema (sociólogo, psicólogo e antropólogo) no Brasil.

    Um abraço do Aspie e continuem seguindo o @aspiesincero no Instagram e mandando suas sugestões, perguntas e dicas de temas para a coluna. 

    Sobre o autor: @aspiesincero é codinome de um autista adulto que através de memes bem humorados busca propagar informações, conscientizar e tornar cada vez mais conhecido esse mundo do TEA. Gosta de escrever porque dá para fazer com apenas uma das mãos enquanto segura uma fatia de pizza na outra. Ler é seu hiperfoco mas rir de si mesmo é seu verdadeiro dom.
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    Sinopse: Neste guia você não vai encontrar técnicas ou fórmulas mágicas, pois o que escrevi aqui são experiências reais e servem de base para que você entenda como meu cérebro autista funciona na prática. Aqui você será espectador e verá a vida através do olhar de quem sente na pele as mesmas sensações que você. Sempre com leveza e bom humor te ensino a não surtar nesse mundo onde a gente se sente um E.T.

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