• Coluna do Pádua: Coronavírus - Um autista em quarentena

    Coronavírus - Um autista em quarentena

    Creio que, a esta altura, todas e todos os leitores deste site já estejam cientes da epidemia da Covid-19, causada pelo SARS Cov-2 (apelidado de “novo coronavírus”). Este vírus já causa uma pandemia mundial, declarada pela OMS no começo de março. A infecção viral já fez milhares de vítimas pelo mundo, e é provável que ainda levemos muitos meses para que a situação seja estabilizada. 

    Não me delongarei aqui a divagar sobre as causas e consequências do vírus, uma vez que estas já são amplamente divulgadas e discutidas internet e mundo afora. E também não é meu objetivo reclamar disso, já que esta pandemia, por suas graves consequências, naturalmente secundarizou todas as outras discussões no espaço público, e a questão da saúde mental fatalmente não seria uma exceção. Meu objetivo neste texto é outro: entender qual a real relevância de se discutir saúde mental em tempos de quarentena. Como ficam os neuro-atípicos nesta situação? E para nós, autistas, como deve ser a experiência da vida em isolamento social forçado? 

    OK, acho que todos nós neuro-atípicos, autistas ou não, já tivemos algum problema com isolamento social antes dele se tornar algo recomendável e obrigatório. Via de regra, nossas peculiaridades são alvo de incompreensão, o que nos causa sabidas dificuldades de relacionamento social e, portanto, uma alta probabilidade de encarar o isolamento. Mas... O que ocorre quando, além das dificuldades usuais, também há a necessidade de se isolar para, em última instância, não morrer? 

    É curioso como esta pauta gerou dilemas existenciais em muitas pessoas e não apenas nos neuro-atípicos. Afinal, antes do coronavírus, tínhamos um grande e necessário foco na melhoria das relações sociais como saída para a depressão causada pelo isolamento. Mas talvez por isso seja importante discutir a saúde mental numa época em que o isolamento se tornou uma medida necessária para conter o avanço do contágio. Não são escassas as brincadeiras – com uma forte carga de ironia crítica, diga-se de passagem – de autistas relatando que não tiveram muito o que mudar em suas rotinas para a autoimposição da quarentena, e isso acaba sendo um fator sintomático das dificuldades sociais pelas quais autistas acabam passando, principalmente na idade adulta. 

    A minha experiência pessoal com isso não é muito destoante da descrita acima. Procuro não deixar minha mente ociosa, recorrendo às leituras, ao videogame e, ocasionalmente, aos exercícios físicos, para que o corpo não fique totalmente inerte. Já tive algumas dificuldades em sair a céu aberto, com o sol castigando severamente meus olhos, que acabaram ficando acostumados a baixos níveis de luz. E meu sono está um tanto desregulado, um problema que estou tentando solucionar. 

    Evidentemente, não tenho como falar por todos os autistas leves, nem mesmo os de minha faixa etária. Contudo, a quem se identificar possa com a experiência descrita, é importante que procure se manter em atividade sempre, e use e abuse da tecnologia existente, com suporte da internet, para manter contato constante com seus amigos, a fim de não potencializar seu isolamento social com outros problemas, como depressão, ansiedade ou até ideações suicidas. Procure também manter um certo equilíbrio na forma como você está absorvendo as informações sobre a crise. É claro que estar ciente da realidade pode ser importante para tomar os cuidados efetivos e evitar mais contaminações e óbitos, mas às vezes lançar mão de atividades que lhe façam espairecer desta situação sufocante pode ser vital para evitar o agravamento destes problemas de saúde mental. 

    Uma outra preocupação não pode ser deixada de lado... E os autistas severos? É sabido comumente que a vida de pais e mães de autistas severos é muito atribulada, já que os desafios diários já são naturalmente muito grandes. Lidar com um ser humano extremamente dependente, como um autista de grau severo já é bastante complicado e exige muita paciência, amor e carinho dos pais e responsáveis. Mas e quando aparece uma doença que exige cuidados tão delicados com a higiene pessoal, como é o caso da Covid-19? Naturalmente, cuidados redobrados, mais atenção e mais paciência com o autista severo são absolutamente necessários. E em tempos de histeria coletiva, não se pode dar qualquer vazão para os conhecidos charlatões, que numa época dessas, certamente aproveitam o desespero de algum pai ou mãe desinformado para vender curas milagrosas para o autismo. Olho nestes casos também! 

    No mais, queridas e queridos, estimo que todas e todos vocês se cuidem bem, e mantenham o isolamento social. Sempre lutamos contra isso ao longo dos anos, como algo a ser evitado... mas agora, infelizmente, é necessário fazer isso. Para proteger as pessoas que amamos, para que depois, quando vencermos este maldito vírus, possamos sair e abraça-las com a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo. 


    Sobre o autor:
    Meu nome é Pádua, tenho 26 anos e sou autista. Sou fotógrafo e amo o que faço! Nas horas vagas, gosto de escrever, pois considero uma atividade super divertida e produtiva. Aproveitem a coluna sem moderação!

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