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  • Coluna do El Clandestine: O Dia do Flashback

    O Dia do "Flashback"

    Saudações à todos! Muito prazer, aqui quem lhes escreve é El Clandestine.

    Me considero abençoadíssimo por nascer em 1981. Sou um homem com atualmente 38 anos, que foi diagnosticado em julho de 2019 e estou lhes redigindo este texto de uma cidade com cerca de cem mil habitantes, cravada em uma verdadeira "Montana" bem no interior do Paraná.

    Com a alegria de uma criança dos anos 90, daquelas que achou a mini estatueta de ferro no Kinder Ovo, aceitei o convite da Dani e pretendo aparecer por aqui, sempre que for possível, para lhes relatar os muitos dos meus "causos" que, juntos, formariam uma série de fazer Friends ficar com inveja.

    Para começar, nada mais sensato do que lhes contar como tudo começou e para conseguir esta façanha, eu vou ter que começar pelo "causo" do dia do "Flashback". Foi mais ou menos assim:

    Era uma vez (Meu Deus! Que coisa mais "carochinha", mas vamos nessa) um rapaz quase virando a linha dos quarenta anos. Em um certo domingo, faltam algumas horas para o Faustão gritar "oito e sete, bicho!" e a esposa olha para ele (acredite, por incrível que pareça, o rapaz é casado!) e diz:

    "- Amor, nossa filhinha caçula é tão quietinha. Fica tão 'na dela'... ...Será que ela não é autista? E mais, será que VOCÊ não é autista?"

    (Pã! Pã! Pãmmm...)

    "- MAS COMO VOCÊ OUSA?!? JAMAIS!!! QUE ABSURDO!!! GRRR..."

    Porém, uma força interna velha conhecida deste rapaz desde que ele nasceu (aqui o "causo" já descambou pra Star Wars...) lhe tira o sossego. Inquieto, minutos depois ele corre à fonte de toda sabedoria e conhecimento popular do universo, a Enciclopédia Bars... (...opa! Desculpa, década errada!) Ele corre para a barra de procura do Google no smartphone, e escreve "autismo". Tópicos aparecem:

    - "Desconforto durante contato visual..."
    (Tá, eu não gosto de olhar na cara dos outros, e daí? Normal, ué! Tem gente bonita, eu fico com vergonha. Tem gente feia, eu prefiro não olhar para não ser indelicado. E dai?)

    - "Dificuldade em fazer ou manter amizades íntimas"
    (Ah, eu sou assim porque sou filho único e ser antissocial faz parte do meu perfil. Não é porque sou autista! Arre, que coisa mais absurda!)

    - "Interesse extremo em um tópico em particular"
    Neste momento, ocorre uma pausa de uns trinta segundos e o rapaz volta seus olhos de modo assustado para o balcão da sala de jantar, onde deixa guardada sua coleção de cuias de chimarrão, tereré, seus pacotes de erva-mate (Ilex Paraguariensis) e tudo que seja ligado a isto. É muita coisa! A prateleira de bonequinhos de seu filho mais velho tem menos ítens... Tremendo, volta a ler:

    - "Dificuldade de Conversar" e "Monólogos frequentes sobre o mesmo assunto ou assuntos"... neste momento vem as falas do colega de trabalho que mais reclama dele e que, irritado, diz constantemente que está cansado de ouvir sobre erva-mate o dia todo...

    (Você tem alguma plataforma digital de música? Se tiver pára tudo, coloca Tears in Heaven do Eric Clapton e depois recomeça a ler).

    A partir dali, uma espécie de "flashback" (tipo aqueles que acontecem nos filmes, quando as lembranças aparecem da ordem mais recente para a mais antiga enquanto um barulho "tzuuuuuuuuum!" toca) praticamente abre uma fenda, traçando uma linha divisória entre duas eras. A era "Ahhhhh, então foi por isso?!?" e a era "Como será o amanhã???"

    Começam a vir à mente, as lembranças do passado. Começam a aparecer todos os momentos da infância e da adolescência. Começam a aparecer aquelas horas do dia (quase todos do ano letivo) em que o rapaz se sentava sozinho, em lugares afastados no pátio do colégio para brincar, para escrever, para "viajar" e fugir do clima estranho, cheio de gente "chata" que preenchia aquele lugar, todo santo dia. Começam a aparecer as imagens de cada uma de suas "musas inspiradoras", de suas "fiéis escudeiras" (até amigas pra ajudar a criticar elas tinham!) e dos consequentes foras (ou tôcos, dependendo da região, independente do nome doía) proferidos por elas, definindo-o o "esquisitão" da turma, na aparência, na maneira de se vestir, falar, andar, ser...

    E antes mesmo de terminar o "saldo de balanço", de contabilizar entre lado bom e lado ruim da história, ele chora, amargamente e do Google pula para o Whatsapp:

    "Querida terapeuta, tem horário para amanhã?"

    (Esta história continuará... Como já é de praxe em outras desventuras minhas: EU VOLTAREI!)


    Sobre o autor:
    Sou o El Clandestine, TEA Aspie, 38 anos e fui Diagnosticado em julho de 2019. Vivendo e descobrindo um mundo onde tudo é novo, bem diferente do que achava "normal"
    Instagram https://www.instagram.com/el_clandestine/
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    Sinopse: Neste guia você não vai encontrar técnicas ou fórmulas mágicas, pois o que escrevi aqui são experiências reais e servem de base para que você entenda como meu cérebro autista funciona na prática. Aqui você será espectador e verá a vida através do olhar de quem sente na pele as mesmas sensações que você. Sempre com leveza e bom humor te ensino a não surtar nesse mundo onde a gente se sente um E.T.

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