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  • Coluna do El Clandestine: O causo do Salvo-Conduto

    O CAUSO DO SALVO-CONDUTO

    Saudações! Conforme prometido, eis-me aqui de novo para mais um dos nossos "causos". E como combinado, o nosso último causo tinha uma parte dois, uma continuação que na realidade é praticamente mais um causo. Vamos lá?

    Assim que descobri que apresentava todas as características de um autista, possivelmente Asperger (antes que a bronca venha: eu sei, mudou o nome, mas na época eu achava que não), eu acionei minha terapeuta pelo whatsapp. Ela era minha psicóloga desde 2007, com um pequeno "rompimento" de alguns anos, quando eu saí furioso do consultório, mas que eu não sabia o porquê até meses atrás. Fui até ela arrasado, aos prantos, parecendo personagem da Malhação - tipo a Nanda dos anos 90 - que descobriu que é adotado e não sabe quem é a mãe biológica ainda. (Desculpem-me pelas comparações "viajadas", galera. Mas é assim que eu encontro meios para dizer como me sinto! Hihihi...).

    No decorrer da sessão, eu disse o que minha esposa me relatou, falei dos meus filhos, das suspeitas da minha esposa para com eles e então ela resolve logo abrir o jogo:

    "- Acalme-se, Cland! Na realidade, seus filhos foram apenas uma IS-CA. A minha preocupação - e a da sua esposa - sempre foi com VO-CÊ! VOCÊ é o provável autista nesta história. Ainda não é hora de pensar nos seus filhos. Vamos começar a estudar o seu caso agora."

    (Deste ponto em diante, qualquer semelhança com o filme Coringa é mera coincidência, juro).

    Muita coisa já fazia sentido quando saí do consultório (na verdade já fazia quando eu entrei, desde a hora do "flashback" que eu tive nos dias anteriores à consulta). Vinham à minha mente lembranças de um episódio antigo do Chapolin, onde um casal queria atravessar de um país para o outro, e para isto precisavam de um "salvo-conduto" (uma permissão especial para transitar livremente para lá e para cá). Paralelamente à isto, minha mente (pensem naquele "capetinha" de desenhos animados) bombardeava o meu ego e a minha personalidade:

    "Quer dizer então que você, senhor Cland, sempre foi assim, brincalhão por NATUREZA, e não há nada de ERRADO nisso? Isso é SEU? "Essa tal neurodiversidade" é algo enraizado em você? ENTÃO PARA QUE SE SENTIR CULPADO? AGORA É HORA DE USAR ESTE "SALVO-CONDUTO" JOVEM RAPAZ! SEJA VOCÊ MESMO! PARTIU TROLLAR GERAL!!!"

    A partir daí, a minha timidez sumiu! Um sorrisão enorme surgiu no meu rosto, e o El Clandestine irônico, aparentemente sarcástico e brincalhão que vocês ouvem no podcast e lêem aqui surgiu. A porta para dizer e fazer a-ber-ta-men-te certas coisas foi aberta!

    Ah, que delícia! Que alívio! Finalmente eu pude usar o verbo contemporâneo trollar sem sentir peso na consciência, dentro e fora da websfera! Podia dizer o que pensava, podia opinar, podia imitar, podia SER EU MESMO e SEM CULPA!

    Porém, foi após alguns dias de "coringagem" que esposa e psicóloga novamente uniram seus esforços e me chamaram a atenção, para uma limitação que até então eu desconhecia. Por melhor que fosse brincar, zoar, dizer o que pensava, opinar, entre outras coisas, à minha maneira, as pessoas - neurotípicas ou neurodiversas - tinham outros sentimentos além de maldade, que eu não conseguia enxergar nas horas certas. A "cumadi" que eu tirei sarro por refrescar sua memória, lembrando dela anos atrás torcendo freneticamente aos berros para o marido ("VÁÁÁÁI BENHÊÊÊÊÊ!!! VÁÁÁÁÁÁI!!! UHUUUUUU!!!") no jogo de futebol da igreja - e das "coleguinhas" apontando o dedo para sua atitude - ficou constrangida, a ponto de ter uma recaída na depressão. O "cumpadi se-achão" que toca no louvor da igreja se envergonhou - e muito - após eu imitá-lo descaradamente, fazendo seus trejeitos com a boca e os pés, tocando as "modas gospel" todo santo domingo.

    Após estes dois episódios a esposa me deu um daqueles puxões de orelha legendários, e posteriormente a terapeuta veio puxando a outra orelha, para me explicar como funciona a Teoria da Mente. Ainda me comparando ao Coringa: Ainda bem que não me mandaram pra Arkham! Hihihi...

    Mas a moral do "causo de hoje" é a seguinte: Descobrir-se autista é uma bênção. Cai uma cortina e descobrimos quem, de fato, somos. Como eu disse, nos é entregue um passaporte para podermos utilizar facetas da nossa personalidade até então desconhecidas, incompreendidas. Mas ser diferente pode ser, de fato um superpoder, como disse Greta Thunberg, porém como disse Stan Lee através do tio do Homem-aranha, "com grandes poderes, vem grandes responsabilidades". Atualmente, os meus esforços se concentram em trabalhar minhas atitudes em terapia para me livrar dos efeitos nocivos da falta de sensibilidade com as relações humanas. São nocivos para mim, pois sempre tem os "coringas neurotípicos" tentando-se aproveitar das nossas fraquezas; Mas também são nocivos para eles, se não tivermos controle sobre nós.

    E, como já é de praxe, sempre fica um "fiozinho" para puxar para os próximos causos... ...em um deles, vou falar sobre o que o médico que me diagnosticou me disse a respeito do mau-uso do salvo-conduto.

    Abraços a todos! Eu voltarei!

    Sobre o autor:
    Sou o El Clandestine, TEA Aspie, 38 anos e fui Diagnosticado em julho de 2019. Vivendo e descobrindo um mundo onde tudo é novo, bem diferente do que achava "normal" 

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