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Vida de Autista

Eu sou Autista

Daniela Sales


Eu sou a Dani e no final de 2017 ouvi da minha terapeuta o diagnóstico que mudou minha vida. Fui diagnosticada com TEA - Transtorno do Espectro Autista, no meu grau antes chamado Síndrome de Asperger.
Após o diagnóstico, aos 42 anos de idade, finalmente conheci a mim mesma e então resolvi abraçar a causa do autismo na vida adulta. Existem milhares de autistas sem o diagnóstico sofrendo nos consultórios, usando antidepressivos, ansiolíticos e toda e qualquer droga que torne a vida mais leve.
No Instagram, no YouTube e aqui no site conto um pouco das minhas experiências e descobertas sobre esse mundo tão fascinante do autismo. Ser diferente é normal :)

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Consultoria Empresarial, Palestras e Treinamentos


A consultoria é feita por mim, autista, grau leve com formação em Administração de Empresas e ampla experiência no mercado. É voltada para microempresas, empresas de pequeno porte e MEI (Microempreendedor individual) de qualquer segmento de atuação. Um grande diferencial é minha visão como profissional e empreendedora dentro do TEA. Essa visão é ideal para o autista que deseja se tornar empreendedor ou que já tem uma empresa ou ainda para a empresa que deseja incluir o autista como público alvo ou que tem ou quer ter profissionais autistas nas vagas PCD. Palestras de conscientização em empresas ou escolas e treinamentos para inclusão do profissional autista nas organizações.
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  • Coluna do Pádua: Coronavírus - Um autista em quarentena

    Coluna do Pádua: Coronavírus - Um autista em quarentena

    Coronavírus - Um autista em quarentena

    Creio que, a esta altura, todas e todos os leitores deste site já estejam cientes da epidemia da Covid-19, causada pelo SARS Cov-2 (apelidado de “novo coronavírus”). Este vírus já causa uma pandemia mundial, declarada pela OMS no começo de março. A infecção viral já fez milhares de vítimas pelo mundo, e é provável que ainda levemos muitos meses para que a situação seja estabilizada. 

    Não me delongarei aqui a divagar sobre as causas e consequências do vírus, uma vez que estas já são amplamente divulgadas e discutidas internet e mundo afora. E também não é meu objetivo reclamar disso, já que esta pandemia, por suas graves consequências, naturalmente secundarizou todas as outras discussões no espaço público, e a questão da saúde mental fatalmente não seria uma exceção. Meu objetivo neste texto é outro: entender qual a real relevância de se discutir saúde mental em tempos de quarentena. Como ficam os neuro-atípicos nesta situação? E para nós, autistas, como deve ser a experiência da vida em isolamento social forçado? 

    OK, acho que todos nós neuro-atípicos, autistas ou não, já tivemos algum problema com isolamento social antes dele se tornar algo recomendável e obrigatório. Via de regra, nossas peculiaridades são alvo de incompreensão, o que nos causa sabidas dificuldades de relacionamento social e, portanto, uma alta probabilidade de encarar o isolamento. Mas... O que ocorre quando, além das dificuldades usuais, também há a necessidade de se isolar para, em última instância, não morrer? 

    É curioso como esta pauta gerou dilemas existenciais em muitas pessoas e não apenas nos neuro-atípicos. Afinal, antes do coronavírus, tínhamos um grande e necessário foco na melhoria das relações sociais como saída para a depressão causada pelo isolamento. Mas talvez por isso seja importante discutir a saúde mental numa época em que o isolamento se tornou uma medida necessária para conter o avanço do contágio. Não são escassas as brincadeiras – com uma forte carga de ironia crítica, diga-se de passagem – de autistas relatando que não tiveram muito o que mudar em suas rotinas para a autoimposição da quarentena, e isso acaba sendo um fator sintomático das dificuldades sociais pelas quais autistas acabam passando, principalmente na idade adulta. 

    A minha experiência pessoal com isso não é muito destoante da descrita acima. Procuro não deixar minha mente ociosa, recorrendo às leituras, ao videogame e, ocasionalmente, aos exercícios físicos, para que o corpo não fique totalmente inerte. Já tive algumas dificuldades em sair a céu aberto, com o sol castigando severamente meus olhos, que acabaram ficando acostumados a baixos níveis de luz. E meu sono está um tanto desregulado, um problema que estou tentando solucionar. 

    Evidentemente, não tenho como falar por todos os autistas leves, nem mesmo os de minha faixa etária. Contudo, a quem se identificar possa com a experiência descrita, é importante que procure se manter em atividade sempre, e use e abuse da tecnologia existente, com suporte da internet, para manter contato constante com seus amigos, a fim de não potencializar seu isolamento social com outros problemas, como depressão, ansiedade ou até ideações suicidas. Procure também manter um certo equilíbrio na forma como você está absorvendo as informações sobre a crise. É claro que estar ciente da realidade pode ser importante para tomar os cuidados efetivos e evitar mais contaminações e óbitos, mas às vezes lançar mão de atividades que lhe façam espairecer desta situação sufocante pode ser vital para evitar o agravamento destes problemas de saúde mental. 

    Uma outra preocupação não pode ser deixada de lado... E os autistas severos? É sabido comumente que a vida de pais e mães de autistas severos é muito atribulada, já que os desafios diários já são naturalmente muito grandes. Lidar com um ser humano extremamente dependente, como um autista de grau severo já é bastante complicado e exige muita paciência, amor e carinho dos pais e responsáveis. Mas e quando aparece uma doença que exige cuidados tão delicados com a higiene pessoal, como é o caso da Covid-19? Naturalmente, cuidados redobrados, mais atenção e mais paciência com o autista severo são absolutamente necessários. E em tempos de histeria coletiva, não se pode dar qualquer vazão para os conhecidos charlatões, que numa época dessas, certamente aproveitam o desespero de algum pai ou mãe desinformado para vender curas milagrosas para o autismo. Olho nestes casos também! 

    No mais, queridas e queridos, estimo que todas e todos vocês se cuidem bem, e mantenham o isolamento social. Sempre lutamos contra isso ao longo dos anos, como algo a ser evitado... mas agora, infelizmente, é necessário fazer isso. Para proteger as pessoas que amamos, para que depois, quando vencermos este maldito vírus, possamos sair e abraça-las com a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo. 


    Sobre o autor:
    Meu nome é Pádua, tenho 26 anos e sou autista. Sou fotógrafo e amo o que faço! Nas horas vagas, gosto de escrever, pois considero uma atividade super divertida e produtiva. Aproveitem a coluna sem moderação!

    Blog pessoal http://flertingcrazyness.blogspot.com 
    Instagram Pessoal https://www.instagram.com/greatwhitepadua/
    Instagram I https://www.instagram.com/antoniodepaduaimagem/ 
    Instagram II https://www.instagram.com/antoniodepaduaimagens/


  • Mensagem do Caboclo Águia Branca

    Mensagem do Caboclo Águia Branca

    Mensagem do Caboclo Águia Branca
     
  • Coluna do El Clandestine: O causo do Salvo-Conduto

    Coluna do El Clandestine: O causo do Salvo-Conduto

    O CAUSO DO SALVO-CONDUTO

    Saudações! Conforme prometido, eis-me aqui de novo para mais um dos nossos "causos". E como combinado, o nosso último causo tinha uma parte dois, uma continuação que na realidade é praticamente mais um causo. Vamos lá?

    Assim que descobri que apresentava todas as características de um autista, possivelmente Asperger (antes que a bronca venha: eu sei, mudou o nome, mas na época eu achava que não), eu acionei minha terapeuta pelo whatsapp. Ela era minha psicóloga desde 2007, com um pequeno "rompimento" de alguns anos, quando eu saí furioso do consultório, mas que eu não sabia o porquê até meses atrás. Fui até ela arrasado, aos prantos, parecendo personagem da Malhação - tipo a Nanda dos anos 90 - que descobriu que é adotado e não sabe quem é a mãe biológica ainda. (Desculpem-me pelas comparações "viajadas", galera. Mas é assim que eu encontro meios para dizer como me sinto! Hihihi...).

    No decorrer da sessão, eu disse o que minha esposa me relatou, falei dos meus filhos, das suspeitas da minha esposa para com eles e então ela resolve logo abrir o jogo:

    "- Acalme-se, Cland! Na realidade, seus filhos foram apenas uma IS-CA. A minha preocupação - e a da sua esposa - sempre foi com VO-CÊ! VOCÊ é o provável autista nesta história. Ainda não é hora de pensar nos seus filhos. Vamos começar a estudar o seu caso agora."

    (Deste ponto em diante, qualquer semelhança com o filme Coringa é mera coincidência, juro).

    Muita coisa já fazia sentido quando saí do consultório (na verdade já fazia quando eu entrei, desde a hora do "flashback" que eu tive nos dias anteriores à consulta). Vinham à minha mente lembranças de um episódio antigo do Chapolin, onde um casal queria atravessar de um país para o outro, e para isto precisavam de um "salvo-conduto" (uma permissão especial para transitar livremente para lá e para cá). Paralelamente à isto, minha mente (pensem naquele "capetinha" de desenhos animados) bombardeava o meu ego e a minha personalidade:

    "Quer dizer então que você, senhor Cland, sempre foi assim, brincalhão por NATUREZA, e não há nada de ERRADO nisso? Isso é SEU? "Essa tal neurodiversidade" é algo enraizado em você? ENTÃO PARA QUE SE SENTIR CULPADO? AGORA É HORA DE USAR ESTE "SALVO-CONDUTO" JOVEM RAPAZ! SEJA VOCÊ MESMO! PARTIU TROLLAR GERAL!!!"

    A partir daí, a minha timidez sumiu! Um sorrisão enorme surgiu no meu rosto, e o El Clandestine irônico, aparentemente sarcástico e brincalhão que vocês ouvem no podcast e lêem aqui surgiu. A porta para dizer e fazer a-ber-ta-men-te certas coisas foi aberta!

    Ah, que delícia! Que alívio! Finalmente eu pude usar o verbo contemporâneo trollar sem sentir peso na consciência, dentro e fora da websfera! Podia dizer o que pensava, podia opinar, podia imitar, podia SER EU MESMO e SEM CULPA!

    Porém, foi após alguns dias de "coringagem" que esposa e psicóloga novamente uniram seus esforços e me chamaram a atenção, para uma limitação que até então eu desconhecia. Por melhor que fosse brincar, zoar, dizer o que pensava, opinar, entre outras coisas, à minha maneira, as pessoas - neurotípicas ou neurodiversas - tinham outros sentimentos além de maldade, que eu não conseguia enxergar nas horas certas. A "cumadi" que eu tirei sarro por refrescar sua memória, lembrando dela anos atrás torcendo freneticamente aos berros para o marido ("VÁÁÁÁI BENHÊÊÊÊÊ!!! VÁÁÁÁÁÁI!!! UHUUUUUU!!!") no jogo de futebol da igreja - e das "coleguinhas" apontando o dedo para sua atitude - ficou constrangida, a ponto de ter uma recaída na depressão. O "cumpadi se-achão" que toca no louvor da igreja se envergonhou - e muito - após eu imitá-lo descaradamente, fazendo seus trejeitos com a boca e os pés, tocando as "modas gospel" todo santo domingo.

    Após estes dois episódios a esposa me deu um daqueles puxões de orelha legendários, e posteriormente a terapeuta veio puxando a outra orelha, para me explicar como funciona a Teoria da Mente. Ainda me comparando ao Coringa: Ainda bem que não me mandaram pra Arkham! Hihihi...

    Mas a moral do "causo de hoje" é a seguinte: Descobrir-se autista é uma bênção. Cai uma cortina e descobrimos quem, de fato, somos. Como eu disse, nos é entregue um passaporte para podermos utilizar facetas da nossa personalidade até então desconhecidas, incompreendidas. Mas ser diferente pode ser, de fato um superpoder, como disse Greta Thunberg, porém como disse Stan Lee através do tio do Homem-aranha, "com grandes poderes, vem grandes responsabilidades". Atualmente, os meus esforços se concentram em trabalhar minhas atitudes em terapia para me livrar dos efeitos nocivos da falta de sensibilidade com as relações humanas. São nocivos para mim, pois sempre tem os "coringas neurotípicos" tentando-se aproveitar das nossas fraquezas; Mas também são nocivos para eles, se não tivermos controle sobre nós.

    E, como já é de praxe, sempre fica um "fiozinho" para puxar para os próximos causos... ...em um deles, vou falar sobre o que o médico que me diagnosticou me disse a respeito do mau-uso do salvo-conduto.

    Abraços a todos! Eu voltarei!

    Sobre o autor:
    Sou o El Clandestine, TEA Aspie, 38 anos e fui Diagnosticado em julho de 2019. Vivendo e descobrindo um mundo onde tudo é novo, bem diferente do que achava "normal" 

  • Coluna do Aspie: Você é normal?

    Coluna do Aspie: Você é normal?

    Olá amigos,

    Bem vindos novamente a coluna do Aspie. Hoje vamos falar sobre essa palavrinha que atormenta muita gente: NORMAL.

    No meu perfil do Instagram, apesar de ter crescido muito em número de seguidores, eu tento sempre manter contato com as pessoas que me acompanham, seja para fazer rir, informar ou apenas ouvir. 

    Quem me segue por lá sabe que sempre procuro responder todo mundo e é dessas conversas que surgem muitas das sugestões sobre assuntos que são tratados por aqui e foi de um apelo que recebi essa semana que resolvi escrever sobre esse tema.

    "Minha família não aceita o meu jeito de ser e diz que eu tenho que me esforçar para ter uma vida normal. Eu não consigo ser normal!"

    Esse foi um trecho da mensagem e decidi discorrer sobre isso. Hoje, graças aos vários autistas que estão levantando suas vozes e ao contato direto e contínuo que tenho com as pessoas através da página do @aspiesincero, posso perceber várias características desse mundo dentro do espectro, juntar minhas experiências com o conhecimento de outros indivíduos e tirar algumas conclusões.

    Todos sabemos das dificuldades que nos cercam, das comorbidades que rodeiam o TEA, das crises sensoriais, das sobrecargas, disfunção executiva, enfim, das limitações que o Autismo nos traz. Eu muitas vezes falo das potencialidades e das vantagens relacionadas com o jeito neurodiverso de ser, mas hoje vou falar mesmo é dessas limitações!

    Na troca de experiências que experimento com outros autistas, homens, mulheres, adultos e adolescentes, não é raro que falemos sobre essas dificuldades. O que pode ser surpresa para muitos de vocês que me acompanham é que dentre todas essas coisas que citei, não foi citada o que é uma das maiores barreiras presentes na vivência de nós autistas, a falta de aceitação do nosso jeito de ser. 

    Isso mesmo, no topo da lista de dificuldades está a falta de compreensão alheia! Continuam querendo enquadrar o autista num padrão de normalidade neurotípico. Querem forçar e acredito que muitas vezes nem é por maldade (como no caso da família da psicóloga de quem recebi a mensagem) a pessoa autista a agir de uma maneira que simplesmente ela não consegue ou não é capaz. Não porque tem algo errado com ela, mas simplesmente porque o Autista é diferente e está tudo bem em ser diferente! 

    As pessoas precisam entender que a neurodiversidade é constitutiva da raça humana, desde que o mundo é mundo existem neurodiversos e só chegamos ao nível de desenvolvimento em que estamos por causa da diversidade em todos os sentidos.

    Com isso, para quem gosta de problematizar, não estou dizendo que o autista não deve buscar auxílio para amenizar as dificuldades e cessar comportamentos inadequados e/ou prejudiciais para sua integridade ou a dos outros. Apenas venho ressaltar que ser normal não é igual a ser neurotípico. Não é esse o padrão que todos devemos seguir. Temos que aprender a viver todos bem com nossas diferenças e se qualquer pessoa não entende isso então quem tem que se esforçar para ser normal não é o autista.

    Aceitação começa dentro de casa. Para existir inclusão de fato é necessário informação, entendimento e conscientização. Por isso o intuito desse texto não é "puxar a orelha" de ninguém. Espero apenas duas coisas: 

    - Primeiro: que as pessoas autistas como essa psicóloga que me enviou a mensagem, saibam que nós somos normais...

    - Segundo: que assim como quem está dentro do espectro procura entender e aceitar o jeito neurotípico de ser, procurem entender a nossa maneira de existir.


    Um abraço do Aspie e continuem seguindo o @aspiesincero no Instagram e mandando suas sugestões, perguntas e dicas de temas para a coluna. 

    Sobre o autor: @aspiesincero é codinome de um autista adulto que através de memes bem humorados busca propagar informações, conscientizar e tornar cada vez mais conhecido esse mundo do TEA. Gosta de escrever porque dá para fazer com apenas uma das mãos enquanto segura uma fatia de pizza na outra. Ler é seu hiperfoco mas rir de si mesmo é seu verdadeiro dom.
  • Coluna da Liga: O autismo e os relacionamentos interpessoais

    Coluna da Liga: O autismo e os relacionamentos interpessoais

    O autismo e os relacionamentos interpessoais

    Minha mãe disse que, quando eu ia à pracinha, mesmo que houvessem outras crianças, eu sempre brincava sozinha e sem sentar na areia: eu só tinha dois anos de idade. 

    Desde muito criança, sempre foi um desafio interagir com os demais e por muitos motivos: eu gostava de brincar sozinha, não possuía os mesmos interesses que os demais, não conseguia criar e manter vínculos por agir e ser, na essência, diferente.

    Lembro-me de tentar me aproximar das outras meninas, na 4ª série do ensino fundamental, mas elas me achavam bruta demais e logo me rechaçavam; eu tentava brincar com os meninos, pois, de alguma forma era mais natural para mim. 

    A pré-adolescência e a adolescência foram complicadas: as meninas já estavam falando em “ficar” com meninos, mas eu não tinha tanto interesse e, por algum motivo, não era interessante a quem olhasse. Mesmo hoje, na faculdade, tenho dificuldade em fazer e manter amigos pelos mesmos motivos de quando eu era criança, porém hoje sinto falto de ter vínculos, antes eu não sentia essa falta ou não me dava conta de que era tratada de modo diferente. 

    Hoje em dia tenho buscado por mais pessoas como eu, autistas, pessoas que minimamente pensam e sentem iguais a mim, talvez assim seja um pouco mais fácil de criar e manter vínculos: interagir com os iguais.





    Sobre o autor:
    Meu nome é Aline Caneda e faço parte da Liga dos Autistas

    Instagram https://www.instagram.com/liga.dos.autistas
  • Coluna do Pádua: Suicídio, um debate necessário

    Coluna do Pádua: Suicídio, um debate necessário


    Suicídio, um debate necessário

    Oi pessoal! 

    Esse é um texto bem diferente da maioria que vocês já viram ou verão de minha autoria por aqui. Minha predileção é a escrita sobre filmes, séries e/ou livros que eu tenha lido, para exprimir o que penso sobre tais obras, desde que haja alguma base fundamental para relacionar com a questão de saúde mental, seja de autistas ou de demais neuro-atípicos. 

    Hoje, porém, o assunto é um pouco mais pessoal... Falaremos sobre um assunto atualíssimo e necessário: a questão do suicídio. Sabe-se que o suicídio, atualmente, aparece na sociedade como um crescente problema de saúde pública. O motivo não é outro senão a taxa alarmante que apresenta em várias faixas etárias, sendo considerado um dos maiores causadores de mortes neste começo de século XXI. É verdade que a taxa mundial diminuiu entre 2010 e 2016 (queda de 9,8% de acordo com a Organização Mundial da Saúde), mas os números ainda são muito altos: a cada 40 segundos no mundo uma pessoa se suicida. 

    Mas... o que leva uma pessoa a querer tirar a própria vida? Aqui trarei tanto as minhas experiências pessoais quanto minhas crenças e convicções a respeito do suicídio. Tive ideações suicidas em alguns momentos da minha vida, por razões de desequilíbrio emocional e financeiro (vão checar o ótimo vídeo da Daniela sobre isso em seu canal do youtube clique aqui ), que me causaram um profundo descontentamento com a vida. É também um fator de risco não criar perspectivas sobre o futuro, deixando para viver a vida apenas como um dia após o outro. Mesmo que essas perspectivas não cheguem a se concretizar, é necessário que tentemos enxergar a nós mesmos daqui a 5, 10 ou 15 anos. Afinal, se não temos objetivos claros na vida, qual o sentido de vivê-la? 

    Mas vamos fundamentar um pouco mais essa discussão. O francês Émile Durkheim, um dos pais fundadores da sociologia, publicou em 1897 a obra “O Suicídio”, um vasto estudo de caso sobre as taxas de suicídio dos protestantes e católicos no final do século XIX e que, por incrível que pareça, pode nos ajudar a elucidar as taxas de suicídio atuais. Durkheim estabeleceu, em sua época, quatro motivos principais que poderiam levar uma pessoa cometer suicídio: 

    1) Senso de não-pertencimento: quando a pessoa não se sente pertencente ao seu contexto social, o que pode levar justamente à falta de sentido da vida, depressão, apatia e melancolia; 

    2) Altruísmo: a pessoa sente-se imbuída de princípios e crenças maiores que seus próprios – como os de grupos ou seitas; 

    3) Anomia: aqui Durkheim propõe que “anomia” seria um estado no qual uma comunidade, devido a distúrbios sociais e problemas econômicos gerais, poderia carecer de direcionamento para seus integrantes, o que lhes causaria potenciais estados de confusão mental; 

    4) Fatalismo: quando algum indivíduo é imbuído de uma conduta moral e métodos pessoais irredutíveis, cujas paixões pessoais acabam sendo oprimidas por estes aspectos. 

    Durkheim propôs ideias importantes, como a possibilidade de estudar a natureza de cada caso de suicídio e quando ele pode ou não se tornar um fenômeno social, de acordo com as particularidades do estudo de caso, bem como – na questão específica dos religiosos – a relação entre a integração com um ambiente de rígido controle social, como de fato era e é a religião – e o controle das taxas de suicídio, colocando para jogo a ideia de integração social, isto é, o senso de pertencimento a uma comunidade ou a um grupo. 

    Mas é possível relacionar esse estudo com os dias atuais através de algum dos quatro tipos de suicídio? 

    Em meu entendimento, isso é super possível, principalmente quando abordamos dois tipos específicos: o senso de não-pertencimento e o de anomia social. Não raro encontramos pessoas que não conseguem encontrar um meio social para chamar de seu e acabam cada vez mais isoladas e se sentindo menos pertencentes a um lugar. Pessoas assim podem de fato sofrer com depressão e portanto, cometer suicídio – lembrando que a principal doença que leva ao suicídio é a depressão, seguida por outros quatro grandes fatores de risco: transtorno bipolar, abuso de álcool e substâncias químicas diversas, esquizofrenia e transtorno de personalidade limítrofe (borderline). 

    A anomia social também é um conceito extremamente atual, ainda mais quando se trata das sociedades latino-americanas e em particular a brasileira. O Brasil, na contramão do mundo, cresceu 7% suas taxas de suicídio entre 2010 e 2016 (dados da OMS). Evidente que temos fatores de risco muito altos, como a facilidade do acesso a armas e/ou a substâncias químicas, mas o fato é que o Brasil vive uma das piores crises de desemprego de sua história. Os direitos trabalhistas foram dilacerados, os empregos gerados nos últimos anos são de baixíssima qualidade. Tudo isso pode parecer apenas “papo de política”, mas tem tudo a ver com a qualidade de vida da população (ou da falta dela). Uma população que está sujeita a baixa qualidade de vida e a uma comunidade de valores confusos e problemas econômicos graves como o Brasil nos dias de hoje, se encaixa muito bem no conceito de anomia social proposto por Durkheim. 

    Mais do que o suicídio em si ser combatido, seus fatores de risco precisam urgentemente ser coibidos. Afinal, não há melhor forma de combater a morte por suicídio do que melhorar a qualidade de vida das pessoas.


    Sobre o autor:
    Meu nome é Pádua, tenho 26 anos e sou autista. Sou fotógrafo e amo o que faço! Nas horas vagas, gosto de escrever, pois considero uma atividade super divertida e produtiva. Aproveitem a coluna sem moderação!

    Blog pessoal http://flertingcrazyness.blogspot.com 
    Instagram Pessoal https://www.instagram.com/greatwhitepadua/
    Instagram I https://www.instagram.com/antoniodepaduaimagem/ 
    Instagram II https://www.instagram.com/antoniodepaduaimagens/
  • Coluna do El Clandestine: O Dia do Flashback

    Coluna do El Clandestine: O Dia do Flashback

    O Dia do "Flashback"

    Saudações à todos! Muito prazer, aqui quem lhes escreve é El Clandestine.

    Me considero abençoadíssimo por nascer em 1981. Sou um homem com atualmente 38 anos, que foi diagnosticado em julho de 2019 e estou lhes redigindo este texto de uma cidade com cerca de cem mil habitantes, cravada em uma verdadeira "Montana" bem no interior do Paraná.

    Com a alegria de uma criança dos anos 90, daquelas que achou a mini estatueta de ferro no Kinder Ovo, aceitei o convite da Dani e pretendo aparecer por aqui, sempre que for possível, para lhes relatar os muitos dos meus "causos" que, juntos, formariam uma série de fazer Friends ficar com inveja.

    Para começar, nada mais sensato do que lhes contar como tudo começou e para conseguir esta façanha, eu vou ter que começar pelo "causo" do dia do "Flashback". Foi mais ou menos assim:

    Era uma vez (Meu Deus! Que coisa mais "carochinha", mas vamos nessa) um rapaz quase virando a linha dos quarenta anos. Em um certo domingo, faltam algumas horas para o Faustão gritar "oito e sete, bicho!" e a esposa olha para ele (acredite, por incrível que pareça, o rapaz é casado!) e diz:

    "- Amor, nossa filhinha caçula é tão quietinha. Fica tão 'na dela'... ...Será que ela não é autista? E mais, será que VOCÊ não é autista?"

    (Pã! Pã! Pãmmm...)

    "- MAS COMO VOCÊ OUSA?!? JAMAIS!!! QUE ABSURDO!!! GRRR..."

    Porém, uma força interna velha conhecida deste rapaz desde que ele nasceu (aqui o "causo" já descambou pra Star Wars...) lhe tira o sossego. Inquieto, minutos depois ele corre à fonte de toda sabedoria e conhecimento popular do universo, a Enciclopédia Bars... (...opa! Desculpa, década errada!) Ele corre para a barra de procura do Google no smartphone, e escreve "autismo". Tópicos aparecem:

    - "Desconforto durante contato visual..."
    (Tá, eu não gosto de olhar na cara dos outros, e daí? Normal, ué! Tem gente bonita, eu fico com vergonha. Tem gente feia, eu prefiro não olhar para não ser indelicado. E dai?)

    - "Dificuldade em fazer ou manter amizades íntimas"
    (Ah, eu sou assim porque sou filho único e ser antissocial faz parte do meu perfil. Não é porque sou autista! Arre, que coisa mais absurda!)

    - "Interesse extremo em um tópico em particular"
    Neste momento, ocorre uma pausa de uns trinta segundos e o rapaz volta seus olhos de modo assustado para o balcão da sala de jantar, onde deixa guardada sua coleção de cuias de chimarrão, tereré, seus pacotes de erva-mate (Ilex Paraguariensis) e tudo que seja ligado a isto. É muita coisa! A prateleira de bonequinhos de seu filho mais velho tem menos ítens... Tremendo, volta a ler:

    - "Dificuldade de Conversar" e "Monólogos frequentes sobre o mesmo assunto ou assuntos"... neste momento vem as falas do colega de trabalho que mais reclama dele e que, irritado, diz constantemente que está cansado de ouvir sobre erva-mate o dia todo...

    (Você tem alguma plataforma digital de música? Se tiver pára tudo, coloca Tears in Heaven do Eric Clapton e depois recomeça a ler).

    A partir dali, uma espécie de "flashback" (tipo aqueles que acontecem nos filmes, quando as lembranças aparecem da ordem mais recente para a mais antiga enquanto um barulho "tzuuuuuuuuum!" toca) praticamente abre uma fenda, traçando uma linha divisória entre duas eras. A era "Ahhhhh, então foi por isso?!?" e a era "Como será o amanhã???"

    Começam a vir à mente, as lembranças do passado. Começam a aparecer todos os momentos da infância e da adolescência. Começam a aparecer aquelas horas do dia (quase todos do ano letivo) em que o rapaz se sentava sozinho, em lugares afastados no pátio do colégio para brincar, para escrever, para "viajar" e fugir do clima estranho, cheio de gente "chata" que preenchia aquele lugar, todo santo dia. Começam a aparecer as imagens de cada uma de suas "musas inspiradoras", de suas "fiéis escudeiras" (até amigas pra ajudar a criticar elas tinham!) e dos consequentes foras (ou tôcos, dependendo da região, independente do nome doía) proferidos por elas, definindo-o o "esquisitão" da turma, na aparência, na maneira de se vestir, falar, andar, ser...

    E antes mesmo de terminar o "saldo de balanço", de contabilizar entre lado bom e lado ruim da história, ele chora, amargamente e do Google pula para o Whatsapp:

    "Querida terapeuta, tem horário para amanhã?"

    (Esta história continuará... Como já é de praxe em outras desventuras minhas: EU VOLTAREI!)


    Sobre o autor:
    Sou o El Clandestine, TEA Aspie, 38 anos e fui Diagnosticado em julho de 2019. Vivendo e descobrindo um mundo onde tudo é novo, bem diferente do que achava "normal"
    Instagram https://www.instagram.com/el_clandestine/
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    Guia Prático para autistas adultos: Como não surtar em situações do cotidiano.

    Sinopse: Neste guia você não vai encontrar técnicas ou fórmulas mágicas, pois o que escrevi aqui são experiências reais e servem de base para que você entenda como meu cérebro autista funciona na prática. Aqui você será espectador e verá a vida através do olhar de quem sente na pele as mesmas sensações que você. Sempre com leveza e bom humor te ensino a não surtar nesse mundo onde a gente se sente um E.T.

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