• Coluna do Pádua: ATYPICAL


    ATYPICAL

    É interessante como a frase “nada como um dia após o outro” faz tanto sentido em algumas situações. Neste caso, acredito ser possível dizer, parafraseando a máxima original, “nada como uma série após a outra”. E nesse contexto, é importante salientar a relevância de conteúdos como a série “Atypical” para a discussão sobre neuro-divergência nos dias de hoje.

    Explico: no mês anterior, escrevi para este mesmo site uma ácida crítica sobre “Os treze porquês”, uma série que incorria em sérios problemas estruturais sobre transtornos mentais e neuro-divergência como um todo. “Atypical”, porém, vai em uma direção completamente distinta. A série, também produzida pela Netflix e estrelada pelo ótimo Keir Gilchrist, traz a história de Sam Gardner, um jovem adolescente autista, e os desafios que ele enfrenta junto a sua família. O convívio familiar de Sam passa por alguns problemas, como a superproteção de sua mãe, as gozações de sua irmã (ainda que eventualmente ela o proteja) e, por vezes, o despreparo de seu pai para lidar com suas características. Inicialmente, Sam é escrito como o típico protagonista autista de qualquer produto desta seara: é estereotipado, cheio de manias quase caricatas e extremamente obsessivo com rituais sociais e comportamentos específicos. Vale ressaltar que nem todo autista possui esses estereótipos.

    No decorrer da série, vemos Sam se defrontar com várias situações com potencial para ativar fortemente seus gatilhos, e de fato eles são ativados com força. Porém, ao invés de “Os Treze Porquês”, o roteiro de “Atypical” é bem sofisticado, apresentando os problemas ao personagem de uma forma realista e tátil, mas sem ser perturbadora ou sádica para com ele ou o espectador. Tanto Sam quanto sua família têm a oportunidade de aprender com esses problemas de maneira razoável e pedagógica. O mais interessante é que também podemos ver a evolução de alguns personagens que de alguma forma são importantes na vida do protagonista, tanto de seu seio familiar quanto de fora dele. Seu pai passa pelas cinco fases do luto emocional, propostas por Kubler-Ross (negação, raiva, barganha, depressão e aceitação). Sua mãe, superprotetora, aprende aos poucos a deixar o filho caminhar com as próprias pernas. Também vemos um arco de desenvolvimento mais complexo da irmã de Sam, que teve a vida quase inteira dedicada a cuidar de seu irmão, mas que quer seguir seu próprio caminho. Ao decorrer da série, ela aprende a conciliar as duas responsabilidades de maneira saudável, fazendo amigos e companhias edificantes no processo. Temos também a psicóloga do garoto, Julia, que o auxilia em seus processos de autoconhecimento e autonomia em relação ao mundo que o cerca, mas que acabou também desenvolvendo um arco dramático próprio em relação a ele, o que leva a consequências inevitáveis sobre os caminhos de ambos os personagens. E temos, por fim, Zahid, seu amigo e colega de trabalho, e Paige, uma garota por quem Sam se apaixona. Ambos o ajudam em seu desenvolvimento quanto às relações amorosas.

    O fato é que “Atypical” não é uma série isenta de defeitos, por sua intensa estereotipia em relação ao protagonista e a alguns dos personagens que compõem seu círculo de convivência social. Contudo, sua elevada disposição para discutir os problemas pelos quais os autistas podem passar na sociedade é altamente edificante para propor soluções sobre como a sociedade pode aprender a lidar melhor com a neuro-divergência. Um conteúdo fenomenal e digno de atenção não apenas de neuro-divergentes, mas também de todos os de alguma forma interessados em saúde mental, como famílias e terapeutas.

    Nota: 9,0

    Sobre o autor:
    Meu nome é Pádua, tenho 26 anos e sou autista. Sou fotógrafo e amo o que faço! Nas horas vagas, gosto de escrever, pois considero uma atividade super divertida e produtiva. Aproveitem a coluna sem moderação!

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    Sinopse: Neste guia você não vai encontrar técnicas ou fórmulas mágicas, pois o que escrevi aqui são experiências reais e servem de base para que você entenda como meu cérebro autista funciona na prática. Aqui você será espectador e verá a vida através do olhar de quem sente na pele as mesmas sensações que você. Sempre com leveza e bom humor te ensino a não surtar nesse mundo onde a gente se sente um E.T.

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