Vida de Autista

Eu sou Autista

Daniela Sales


Eu sou a Dani e no final de 2017 ouvi da minha terapeuta o diagnóstico que mudou minha vida. Fui diagnosticada com TEA - Transtorno do Espectro Autista, no meu grau antes chamado Síndrome de Asperger.
Após o diagnóstico, aos 42 anos de idade, finalmente conheci a mim mesma e então resolvi abraçar a causa do autismo na vida adulta. Existem milhares de autistas sem o diagnóstico sofrendo nos consultórios, usando antidepressivos, ansiolíticos e toda e qualquer droga que torne a vida mais leve.
No Instagram, no YouTube e aqui no site conto um pouco das minhas experiências e descobertas sobre esse mundo tão fascinante do autismo. Ser diferente é normal :)

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Consultoria Empresarial, Palestras e Treinamentos


A consultoria é feita por mim, autista, grau leve com formação em Administração de Empresas e ampla experiência no mercado. É voltada para microempresas, empresas de pequeno porte e MEI (Microempreendedor individual) de qualquer segmento de atuação. Um grande diferencial é minha visão como profissional e empreendedora dentro do TEA. Essa visão é ideal para o autista que deseja se tornar empreendedor ou que já tem uma empresa ou ainda para a empresa que deseja incluir o autista como público alvo ou que tem ou quer ter profissionais autistas nas vagas PCD. Palestras de conscientização em empresas ou escolas e treinamentos para inclusão do profissional autista nas organizações.
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  • 18 de junho - Dia do Orgulho Autista

    18 de junho - Dia do Orgulho Autista

    Orgulho Autista - Dia 18 de junho

    Olá amigos do Aspie! Dia 18 de junho é uma data mais do que especial para nós autistas. Dia do orgulho, dia de ressaltar o nosso jeito de existir no mundo, dia de pedir respeito... nosso dia! 

    A data começou a ser comemorada há mais de uma década por iniciativa do grupo Aspies for Freedom para ressaltar as qualidades das pessoas autistas e apresentar uma visão do autismo na luz da cultura da neurodiversidade. 

    Mas e esse orgulho é do Autismo ou do Autista? O Autismo é um espectro, é diferente para cada um, é um diagnóstico, é um laudo, um código no CID (código internacional de doenças) ou no DSM (manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais) mas ele não define ninguém. Já o Autista é a pessoa, é o cidadão, é o filho, é o pai, é a mãe. É o indivíduo e é único! 

    O Autista supera, luta, sofre preconceito, muitas vezes sente-se sozinho mesmo em uma multidão. Ele aprende, ele ensina. O Autista sente, tem empatia, sofre por ele e pelos outros. É incompreendido, tem sua fala abafada, grita! O Autista precisa e quer ser ouvido. Pode ser protagonista de sua própria vida. É capaz! Luta por seus direitos e tem potencial para alcançar o seu máximo. Clama para que entendam que o máximo de cada um pode estar aquém ou além das expectativas do que é considerado "normal" e tudo bem com isso. 

    Normal é chato, legal é ser diverso, é aceitar a diversidade como um todo. Não existe o todo sem a diversidade. O autista existe, insiste, é capaz de amar o outro e a si próprio. Então meus amigos, o Orgulho é Autista, de ser quem somos e como somos, independentemente de rótulos, esteriótipos ou limites. 

    Viva o Autista... Que orgulho!!!

    Sobre o autor: @aspiesincero é codinome de um autista adulto que através de memes bem humorados busca propagar informações, conscientizar e tornar cada vez mais conhecido esse mundo do TEA. Gosta de escrever porque dá para fazer com apenas uma das mãos enquanto segura uma fatia de pizza na outra. Ler é seu hiperfoco mas rir de si mesmo é seu verdadeiro dom.
  • Coluna do Pádua: O autismo e a teoria do Caos ou Como lidar com o não-controle

    Coluna do Pádua: O autismo e a teoria do Caos ou Como lidar com o não-controle

    O Autismo e a teoria do Caos ou Como lidar com o não-controle

    É sabido, entre outras coisas, que a pessoa autista possui uma tendência a estrutura rígida de pensamento. Isso é observável por vários aspectos; das rotinas de afazeres diários às quais ela geralmente acomoda em sua vida, passando por eventuais manias que desenvolvam até a forma como ela lida com as divergências ou imprevistos com as quais eventualmente pode se deparar. Assim, a estrutura rígida de pensamento geralmente leva o autista a se desenvolver muito bem dentro de ambientes rígidos, com regras especificadas e nos quais haja o mínimo possível – ou zero - de alterações. 

    Mas... O que acontece quando esse controle... some? Escafede-se? Essa indagação nos leva ao seguinte ponto do texto.

    Há um campo de estudo na matemática que investiga as possibilidades de se manter o controle sobre sistemas complexos e monitorados. Esse campo produziu o que se convencionou chamar de Teoria do Caos. Essa teoria explica justamente a impossibilidade de manter o total controle sobre esses sistemas, uma vez que há muito mais variáveis atuando sobre esse sistema do que simplesmente as controladas (ou controláveis). Essa teoria foi popularizada em filmes como Jurassic Park (1993) e Efeito Borboleta (2004), que mostraram mais ou menos, em acordo com a Teoria do Caos, como sistemas altamente complexos – e extremamente monitorados, caso do parque temático do filme de Steven Spielberg – seriam extremamente vulneráveis a drásticas mudanças a partir de alterações, por menores que sejam, nas condições iniciais desses sistemas. 

    Autistas, como já dito, possuem rigidez de pensamento. Isso pode ocasionar dificuldades em situações imprevisíveis ou sistemas complexos com um ou mais aspectos caóticos. Uma vez nosso cérebro sendo bastante apegado a padrões, seja de rotina ou de comportamentos, lidar com situações que fogem ao costume e/ou ao controle, parcial ou totalmente, pode apresentar diferentes níveis de dificuldade. Tendemos a rejeitar e nos frustrar com situações que não nos sejam costumeiras ou controláveis. Assim, o conhecimento acerca da teoria do caos poderia torná-la uma importante aliada do autista em sua estratégia de convívio com a sociedade. 

    A pessoa autista, como todo ser humano, fatalmente terá de lidar com aspectos caóticos na vida em sociedade, podendo variar de acordo com o nível de interação que esta impõe. É bem verdade que a sociedade, em seu eixo estrutural, é um ente organizado, com regras sociais, morais e éticas a serem seguidas por todas as pessoas que nela estão inseridas; há, no entanto, duas inconveniências: a primeira é que, apesar dessa organização, a sociedade é feita por seres humanos e estes podem ou não possuir a rigidez de pensamento comum nos autistas. Assim, atrasos a compromissos, esquecimentos ou a mera desconsideração dos outros para com nossas regras pessoais, podem ser mais comuns do que gostaríamos. E a segunda é que há aspectos naturalmente incontroláveis da existência como um todo e da natureza, tais como meteorologia e doenças. 

    Um exemplo pessoal: em 2012, me preparava para apresentar um seminário em grupo na universidade, mas acabei acometido por uma doença cutânea que me forçou a fazer uma cirurgia e ficar duas semanas em casa, no final de semana anterior ao seminário! A frustração foi imensa, e por muitos dias fiquei a imaginar como poderia resolver isso. No final, deu tudo certo e as coisas se ajeitaram ao passo em que fiz um fichamento de resumo sobre o assunto ao qual iria apresentar no seminário, e posteriormente consegui a aprovação na disciplina. Uma situação que me fugiu totalmente ao controle, resolvida com calma, parcimônia e a aceitação de que as coisas poderiam dar certo mesmo sem que eu tivesse controle delas.

    O fato é que a Teoria do Caos pode sim ser uma grande aliada, não apenas para nós autistas, mas de qualquer pessoa que possua dificuldades em aceitar que não pode controlar tudo na vida e existência. Não é fácil, afinal, estamos lidando com uma ideia que, em um primeiro olhar, nos tolhe em vez de amplificar as nossas possibilidades. Mas se olharmos bem, podemos ver que não é tão difícil assim, já que é possível adequarmos nossa existência a essa ideia sem grandes traumas.

    Afinal, como diz o Dr. Ian Malcolm em Jurassic Park...“A vida encontra um jeito.”


    Sobre o autor:
    Meu nome é Pádua, tenho 26 anos e sou autista. Sou fotógrafo e amo o que faço! Nas horas vagas, gosto de escrever, pois considero uma atividade super divertida e produtiva. Aproveitem a coluna sem moderação!

    Blog pessoal http://flertingcrazyness.blogspot.com 
    Instagram Pessoal https://www.instagram.com/greatwhitepadua/
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  • Coluna do Aspie: Neurodiversidade e Aceitação

    Coluna do Aspie: Neurodiversidade e Aceitação


    Olá amigos do Aspie,

    Cada dia mais a neurodiversidade está em evidência. Quem vive dentro dessa realidade do TEA se depara quase que diariamente com essa palavra e, felizmente, até para quem não tem algum familiar ou conhecido dentro do espectro do autismo, o termo começa a ficar conhecido. Mas o que é neurodiversidade de fato e por que é tão importante? 

    Hoje vou falar um pouco sobre esse assunto que não é tão simples quanto parece e o porquê de ser tão importante que as pessoas entendam e aceitem esse conceito. 

    Foi uma socióloga, jornalista e pessoa autista australiana, Judy Singer, quem cunhou tal termo, no final da década de 1990, através de sua tese de doutorado que mais tarde até se transformaria em um livro de nome “ Neourodiversity: The Birth of an Idea” , e depois disso o conceito foi se popularizando cada vez mais. 

    A ideia central é simples, ela prega que o desenvolvimento neurológico atípico, ou diverso, seria algo esperado dentro do desenvolvimento biológico da raça humana, portanto, algo a ser aceito e levado em conta na constituição da espécie, não algo a ser corrigido ou consertado na pessoa para que ela se adeque a um padrão de normalidade tido como típico. 

    Como eu disse, a ideia é simples, mas a prática nem tanto. Desde que o mundo é mundo, existem pessoas neurodiversas e se formos buscar na história podemos citar vários exemplos de pessoas notáveis que se enquadravam nesse desenvolvimento atípico, chego a duvidar que teríamos alcançado esse nível de desenvolvimento em que estamos se não fosse essa diversidade. 

    Também é verdade que, seja por falta de conhecimento, por preconceito, ou de tudo junto, o ser humano não lida bem com as diferenças e há não muito tempo, crianças autistas eram acorrentadas em manicômios e segregadas da sociedade, e mesmo quando não chegavam a ser internadas e lá deixadas, eram separadas do convívio das outras, seja nas escolas ou em qualquer outro ambiente comunitário. 

    Hoje, não basta apenas inserir a pessoa autista com leis de inclusão onde ela tem o direito de escolher em qual escola estudar, ou buscar garantir acesso as diversas terapias que visam ajudar no desenvolvimento do individuo e possibilitam uma vida adequada na sociedade. 

    A cultura neurodiversa prega muito mais do que isso. Essa tem como premissa um olhar social sobre a deficiência em detrimento a uma abordagem exclusivamente médica da mesma. Busca não uma cura para a pessoa autista ou para o autismo, mas sim aceitação e diz que não é apenas a pessoa com desenvolvimento atípico quem necessita de tratamento e sim a sociedade como um todo, pois reitero, não basta que o indivíduo atípico se adeque e sim que toda a comunidade se ajuste às várias maneiras de existir e a todas as configurações cerebrais. 

    Claro que com isso não estou dizendo que leis e políticas de inclusão não são importantes. Mais do que isso, são muito úteis e necessárias pois são o caminho para esse fim que busca o movimento da neurodiversidade e são instrumentos de equidade. Também, essa abordagem não é excludente, e sim complementar ao modelo médico, pois a medicina atua atrelada aos conhecimentos científicos e baseada em evidencias contribuindo para um desenvolvimento pleno. 

    Exemplificando e trazendo para o mundo real o porquê de tamanha importância de todo esse conceito, podemos observar alguns dados recentes divulgados em estudos científicos e pesquisas.

    Dados mostram que quase 85% das pessoas autistas estão fora do mercado de trabalho, mesmo tendo potencial para desenvolver um ótimo trabalho nas mais diversas áreas. 

    Publicado na prestigiada revista Lancet Psychiatry em 2014, por Segers e Rawana, um estudo realizado com autistas mostrou que 66% dos participantes relataram pensar em suicídio e que 35% destes, tentaram ao menos uma vez no passado, suicidar-se. Outro estudo publicado em 2017, duas pesquisadoras do Reino Unido, Sarah Cassidy e Jacqui Rodgers, mostra que dados preliminares acerca do tema suicídio no TEA é alarmante. Hirvikoski e colaboradores corroboram esses fatos em outro estudo reportando o suicídio como uma das principais causas de morte prematura em pessoas autistas. 

    Mas por que essa incidência tão grande no TEA? Uma revisão realizada por Richa e colaboradores em 2014 mostrou os principais fatores de risco em indivíduos autistas. São eles:

    • Distúrbios de comportamento (comportamentos opositores, agressivos, explosivos e impulsivos).
    • Sintomas depressivos (a depressão é uma das comorbidades mais presentes no autismo). 
    • Histórico como vítima de bullying. 
    • Histórico de abuso sexual (dados mostram que em pessoas com deficiência a incidência desse tipo de abuso é mais que o dobro que na população geral e que em autistas é ainda maior). 
    • Eventos de estresse emocional (comuns no autismo relacionados a eventos como mudança de rotina ou de rituais específicos por exemplo). 
    • Faixa etária (principalmente adolescência). 
    • Tendência ao isolamento físico e falta de possibilidade de interação com os pares da mesma idade. 

    Agora notem dentre os principais fatores que nem tudo tem a ver com o TEA. Logo de cara podemos observar que o bullying, abuso sexual e faixa etária não são inerentes ao autismo sendo os dois primeiros relacionados a intolerância e maldade alheia, e o terceiro a um fator biológico. A tendência ao isolamento físico apesar de ser um dos principais déficits nos transtornos do espectro do autismo, não se dá apenas pela dificuldade do autista em socializar como também pela falta de aceitação das diferenças e muitas vezes pela insistência de que a pessoa atípica se comporte de maneira típica, algo que além dela não ser capaz, causa sofrimento pela frustração ao tentar e não conseguir. 

    Até mesmo os distúrbios de comportamento e os eventos estressores, que são diretamente relacionados ao autismo, não tem seus alicerces apenas baseado nisso, pois a agressividade, oposição e impulsividade podem ser abrandadas quando existe acesso universal as intervenções adequadas, o que não é uma realidade principalmente em países como o Brasil. Já as mudanças de rotina e rituais que também são intimas do TEA, têm a possibilidade de serem amenizadas com práticas de inclusão e adaptação melhores trabalhadas, tanto na escola quanto no mercado de trabalho por exemplo. 

    Com tudo isso fica fácil entender porque a depressão, que também não é algo de dentro do autismo, está tão presente e como tudo isso culmina nessa alta taxa de mortes precoces por suicídio. 

    Por isso, não basta falar em neudiversidade, é preciso praticar, é preciso aceitar! Incluir é um dever de todos e não apenas de políticas públicas e de instituições. Prédios e leis não incluem; pessoas incluem! 

    É preciso ouvir os autistas, promover a auto aceitação e o orgulho de ser como é, bem como a aceitação de todos. Não busque a cura e sim o cuidado. Promova o desenvolvimento das potencialidades e a atenuação das dificuldades. Como diria a espetacular Temple Grandin, “ o mundo precisa de todos os tipos de mentes!”

    Um abraço do Aspie e continuem seguindo o @aspiesincero no Instagram e mandando suas sugestões, perguntas e dicas de temas para a coluna. 

    Sobre o autor: @aspiesincero é codinome de um autista adulto que através de memes bem humorados busca propagar informações, conscientizar e tornar cada vez mais conhecido esse mundo do TEA. Gosta de escrever porque dá para fazer com apenas uma das mãos enquanto segura uma fatia de pizza na outra. Ler é seu hiperfoco mas rir de si mesmo é seu verdadeiro dom.
  • Coluna do Aspie: Especial Dia das Mães

    Coluna do Aspie: Especial Dia das Mães


    Ela criou três filhos. Três crianças autistas numa época onde não se falava de autismo. O mais velho vomitava o tempo todo, o segundo chorava sem para e o mais novo ainda não falava, mesmo com idade para dizer muito mais do que apenas um simples "mamãe".

    Os três bem diferentes entre si mas com algo em comum: não eram como as outras crianças. Lembro que um dia desses, não faz muito tempo, perguntei à minha mãe se ela não notava que éramos diferentes. Inocência minha achar que não... Ela notava, claro que notava, minha mãe percebe tudo! Ela respondeu que sim, claro! Mas que ela nos levava até os médicos toda semana e ninguém sabia dizer o porquê de tal diferença...

    "Cada criança tem seu tempo", "é coisa de sua cabeça", "tá procurando problema"... Quantas frases desse tipo ela ouviu e fico pensando quantas dessas frases são ditas ainda hoje. Mas mãe sabe e a minha sabia..

    Ela não podia nomear a condição dos três filhos pois nem mesmo os médicos da época o faziam. Mas criar com maestria, isso ela podia e fez!

    Ela nos ensinou tudo que sabia e podia. Teve que aprender a nos ver crescer sem receber muitos abraços pois, nenhum dos três era muito dado a abraçar. Não teve muitas apresentações na escola para ir porque não participávamos de quase nenhuma e também não foi em muitas formaturas...

    Aprendeu que a dificuldade dos filhos em demonstrar os sentimentos não era o mesmo do que não sentir. Sempre soube deixar claro o quanto gosta dos filhos e apesar das nossas características que poderiam facilmente serem confundidas com frieza, soube nos mostrar que compreendia o quanto era admirada.

    Eu disse antes que ela não podia, na época, nomear a condição dos filhos, porém ela fez algo muito maior. Ela ensinou a condição do amor!

    Feliz dia das mães todos os dias. Eu te amo 💗


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  • Coluna da Gabi: Uma autista na empresa

    Coluna da Gabi: Uma autista na empresa

    Sabe aquele frio na barriga, aquele nervosismo bem na hora da entrevista de emprego? Sabe aquela vontade de sair correndo ao olhar em volta e perceber quantos candidatos estão ali competindo pela mesma vaga que você? Pois é, pouco mais de 1 ano atrás eu senti tudo isso e mais um pouco...

    Após ser dispensada em alguns processos seletivos, surgiu uma oportunidade que parecia surreal. Fui, mas fui sem esperanças, fui apenas por ir. Após realizar todos os testes, bem como a entrevista, já estava em casa refletindo sobre o que faria em seguida, e imagine qual foi minha surpresa ao receber a ligação informando que havia sido selecionada para a vaga! Um misto de espanto, alegria, medo... eu simplesmente não sabia o que estava sentindo.

    Com o processo de contratação finalizado, dei início a uma caminhada que não acreditava durar mais que o período de experiência proposto em contrato. As primeiras duas semanas foram horríveis. Todos sabemos que, independente do grau de autismo, todos no espectro precisam de adaptações nos mais diferentes aspectos, uma vez que todos somos diferentes e, por isso, temos necessidades e dificuldades distintas. Eu era uma novidade para a equipe, a qual ainda não estava preparada para lidar comigo. Foram momentos difíceis, dias longos e horas intermináveis. Eu era agitada, não conseguia me adequar ao ambiente, não permanecia sentada por mais de 10 minutos seguidos - em decorrência da agitação e impulsividade presentes em vários autistas - e não tinha segurança para realizar nenhum procedimento, embora soubesse que dominava a maior parte deles.

    Exausta de tentar e com 3 semanas de empresa, optei por solicitar meu desligamento da mesma. Contudo, fui encorajada a tentar novamente e assim o fiz. Cabe lembrar, que o incentivo é de extrema importância no processo de aprendizagem e adaptação dos indivíduos no Espectro. Quando cogitava a possibilidade de desistir, me lembravam que eu estava indo bem e que poderia continuar. Aos poucos e com bastante esforço de ambas as partes, fui me acostumando com a rotina, com os procedimentos, e o mais importante: a empresa foi se acostumando comigo, adaptando o que era necessário. Até mesmo evitavam barulhos desnecessários porque sabiam que poderia me incomodar, dada a sensibilidade auditiva presente no TEA.

    As horas, que antes delongavam-se, começaram a passar em um “piscar de olhos”, de maneira célere. Comecei a conhecer outros setores, outras pessoas e, quando percebi, já conhecia toda a empresa, onde era aceita exatamente como eu era. Confesso que amava alguns setores específicos, onde passava horas e horas após bater ponto, e nos quais conheci pessoas que me ensinaram inúmeras coisas e que se permitiram aprender sobre o autismo apenas para que pudessem me acolher. Assim, as 6 horas diárias não eram mais suficientes, eu não queria sair de lá.

    Após 10 meses, para meu melhor desempenho, foi necessário que eu fosse remanejada para outro setor. Equipe diferente, prédio diferente, trabalho diferente... Sim, tudo isso me assustou e novamente pensei em desistir. Foi quando, mais uma vez, me lembraram que eu tinha conseguido até ali, o que me deu forças para tentar. Para minha surpresa, a equipe parecia já estar pronta para me incluir. Alguns problemas em um primeiro momento como era de se esperar, mas nada sério. Continuaram adaptando tudo para que eu me sentisse bem, desde o meu horário, até o trabalho desenvolvido.

    O autismo se tornou uma causa coletiva na empresa.

    E como estamos hoje em dia? Sigo na mesma equipe, a qual segue se adaptando a cada dia. Respeitam minha acuidade auditiva, respeitam meu tempo, respeitam quem eu sou. Reconheço que trabalhar em uma empresa tão inclusiva é um privilégio que a maior parte dos PCD’s não tem, e serei eternamente grata por estar ali. Hodiernamente, seguimos na luta pela inclusão - e não apenas pela integração - no mercado de trabalho e na sociedade como um todo.​

    Nota da Dani: A Gabi não quis se expor com uma foto de rosto e a vontade dela foi respeitada. A foto no post é da primeira mesa da Gabi na empresa.

    Sobre a autora:
    Meu nome é Gabrielle Luiza, tenho 20 anos, diagnosticada com autismo atípico leve para moderado. Gosto de ler sobre vários temas, especialmente sobre filosofia, de trabalhar e ouvir música clássica. Quero ser advogada e atuar diretamente na defesa dos direitos das pessoas com deficiência. Sou muito boa com números e obviamente péssima com apresentações. Até mais!


  • Coluna do Aspie: Reflexões em tempos de bullying

    Coluna do Aspie: Reflexões em tempos de bullying


    Reflexões em tempos de bullying 

    Olá amigos,


    O assunto a ser tratado hoje é algo que infelizmente nos deparamos todos os dias: Preconceito.

    Como todos sabem, ou pelo menos como todos nós que lutamos pelas causas do autismo estamos trabalhando para isso, abril é o mês que marca a conscientização sobre o TEA. Logo nesse momento tão importante nos deparamos, mais uma vez, com um episódio de intolerância sem tamanho que veio a afligir tantas famílias. Duas pessoas, os quais não vou identificar aqui pois o intuito não é dar visibilidade a esses cidadãos e sim trazer uma reflexão sobre o ocorrido, rasgaram palavras de ódio e desrespeito não apenas contra pessoas autistas, mas também à pessoas com síndrome de down e até mesmo (pasmem) às crianças que lutam contra o câncer, durante uma apresentação em um show de comédia diante de uma plateia lotada.

    Para que possamos pensar um pouco sobre tudo isso, permitam-me aqui expor uma definição que pode nos ajudar a entender a situação.

    Normose: refere-se a normas, crenças e valores sociais que causam angústia e podem ser fatais, em outras palavras, comportamentos normais de uma sociedade que causam sofrimento e morte. Nesse sentido, é comum justificar a manutenção de um comportamento não saudável por ser normal, algo que "todo mundo faz".

    Agora vamos ver o porquê dessa justificativa ser uma falácia e não se sustentar, trazendo apenas malefícios a sociedade quando tal comportamento é perpetuado.

    Em uma analogia simples, imaginem, ou para quem nasceu na década de 80 ou antes apenas lembrem, como as pessoas fumavam em ambientes públicos e fechados, como restaurantes, aviões, empresas, etc. Ou pensando em outro exemplo prático, como não se usava capacete para andar de motocicleta pois não existia obrigação para tal ato. Podia-se afirmar até hoje que, seguindo os exemplos citados, a proibição de fumar naqueles locais ou obrigar o uso do capacete, seriam atos de cerceamento de liberdade ou em outras palavras formas de privar o cidadão de escolhas individuais, afinal, se alguém não gosta de cigarro que não vá onde estão os fumantes ou que ao não fazer uso do capacete, só quem se prejudica é a própria pessoa que fez a opção de não usá-lo.

    Mas o fato é que a sociedade muda e mais importante, ela tem que mudar! Difícil encontrar hoje quem defenda fumar ao lado de uma criança num restaurante ou que não entenda que acidentes de trânsito são questões de saúde pública e que tanto proteger-se como também proteger outras pessoas diz respeito a todo mundo e não apenas a si próprio.

    Indo um pouco mais longe na história (nem tão longe assim), podemos citar a escravidão, onde tratar outro ser humano como inferior e obrigar a servir, em condições degradantes, os mais abastados da sociedade era considerado “normal”.

    Se até hoje mantivéssemos o conceito rígido de aceitação dessas situações e de tantas outras que poderia citar aqui, estaríamos vivendo em um mundo sombrio. Porém, a humanidade, tanto numa questão individual como coletiva tem a obrigação de crescer, melhorar, evoluir!

    Claro que essa evolução não acontece da noite para o dia e por isso é necessário que hajam vozes que se levantam e se oponham as normoses do cotidiano. Muito comum a justificativa das pessoas que cometem atos repugnantes como foi o caso desses dois “comediantes” de que hoje em dia é tudo “mimimi”, que o politicamente correto é chato ou que isso é arte e liberdade de expressão.

    Muitos escravagistas diriam que era “mimimi” de negros reclamarem dos seus “donos” sendo que os seus senhores lhe davam tudo que precisavam e ainda iam mais longe dizendo que abolir a escravidão só levaria as pessoas a morte por fome. Reclamar do politicamente correto também não serve pois podemos apenas esquecer o termo politicamente e lembrar que existe o correto e o incorreto e nunca será normal agir de maneira preconceituosa com alguém, independentemente de qualquer contexto. Reforçando, o mundo muda, tudo e todos mudam juntos. Piadas que eram aceitas há 10 ou 20 anos, hoje não são mais, assim como todas essas situações que foram citadas durante todo esse texto, e afirmar que sempre foi assim não cabe pois se não o bom senso é capaz de permear certas atitudes, a lei é! E nunca é demais lembrar que é crime o preconceito contra deficientes, assim como qualquer tipo de preconceito.

    Claro que não esqueci aqui de falar sobre arte ou liberdade de expressão. Fazer arte é lindo e ninguém é contra isso. Há até quem diga que a arte não tem limite e digo a todos que concordo plenamente. Não se pode limitar a arte nem tampouco o artista, mas o fato aqui é que a apresentação dita comédia que foi exposta, não se trata de arte e é preciso definir bem o que é ser um artista. A arte visa trazer um bem a sociedade e não vi em nenhum momento de tal apresentação algo que trouxesse benefício, pelo contrário, vi apenas maldade despejada sem a mínima consideração pela condição humana.

    Nunca, em nome da arte, pode-se passar por cima da dignidade. Imagine que numa peça de teatro fosse permitido que uma pessoa de 40 anos fizesse sexo explícito, ou melhor dizendo já que não existe sexo com crianças, abusasse de uma pessoa de 8 anos de idade. Seria arte ou pedofilia? Então o que se busca limitar aqui não é a arte e sim a virtude do que é ser humano.

    Por fim, mas não menos importante, que fique claro que não sou nem nunca serei contra a liberdade de expressão. Sempre apoiarei o direito de qualquer um se expressar. O que pondero aqui é o ato de que ter liberdade para expressar não extingue o fato de que a pessoa tem que responder pelo que expressou dentro dos critérios da lei.

    Para concluir, não posso deixar passar batido os risos que se ouviam do público presente na apresentação ao fim de cada fala maldosa desferida. O que mais explica, senão a normose, o fato de duas pessoas estarem cometendo um crime de preconceito e intolerância e uma plateia toda gargalhando, sem que ninguém levante e contraponha-se?

    Normose é um termo que foi forjado por Jean Yves Leloup (filósofo) na França, e por Roberto Crema (sociólogo, psicólogo e antropólogo) no Brasil.

    Um abraço do Aspie e continuem seguindo o @aspiesincero no Instagram e mandando suas sugestões, perguntas e dicas de temas para a coluna. 

    Sobre o autor: @aspiesincero é codinome de um autista adulto que através de memes bem humorados busca propagar informações, conscientizar e tornar cada vez mais conhecido esse mundo do TEA. Gosta de escrever porque dá para fazer com apenas uma das mãos enquanto segura uma fatia de pizza na outra. Ler é seu hiperfoco mas rir de si mesmo é seu verdadeiro dom.
  • Coluna do Pádua: Coronavírus - Um autista em quarentena

    Coluna do Pádua: Coronavírus - Um autista em quarentena

    Coronavírus - Um autista em quarentena

    Creio que, a esta altura, todas e todos os leitores deste site já estejam cientes da epidemia da Covid-19, causada pelo SARS Cov-2 (apelidado de “novo coronavírus”). Este vírus já causa uma pandemia mundial, declarada pela OMS no começo de março. A infecção viral já fez milhares de vítimas pelo mundo, e é provável que ainda levemos muitos meses para que a situação seja estabilizada. 

    Não me delongarei aqui a divagar sobre as causas e consequências do vírus, uma vez que estas já são amplamente divulgadas e discutidas internet e mundo afora. E também não é meu objetivo reclamar disso, já que esta pandemia, por suas graves consequências, naturalmente secundarizou todas as outras discussões no espaço público, e a questão da saúde mental fatalmente não seria uma exceção. Meu objetivo neste texto é outro: entender qual a real relevância de se discutir saúde mental em tempos de quarentena. Como ficam os neuro-atípicos nesta situação? E para nós, autistas, como deve ser a experiência da vida em isolamento social forçado? 

    OK, acho que todos nós neuro-atípicos, autistas ou não, já tivemos algum problema com isolamento social antes dele se tornar algo recomendável e obrigatório. Via de regra, nossas peculiaridades são alvo de incompreensão, o que nos causa sabidas dificuldades de relacionamento social e, portanto, uma alta probabilidade de encarar o isolamento. Mas... O que ocorre quando, além das dificuldades usuais, também há a necessidade de se isolar para, em última instância, não morrer? 

    É curioso como esta pauta gerou dilemas existenciais em muitas pessoas e não apenas nos neuro-atípicos. Afinal, antes do coronavírus, tínhamos um grande e necessário foco na melhoria das relações sociais como saída para a depressão causada pelo isolamento. Mas talvez por isso seja importante discutir a saúde mental numa época em que o isolamento se tornou uma medida necessária para conter o avanço do contágio. Não são escassas as brincadeiras – com uma forte carga de ironia crítica, diga-se de passagem – de autistas relatando que não tiveram muito o que mudar em suas rotinas para a autoimposição da quarentena, e isso acaba sendo um fator sintomático das dificuldades sociais pelas quais autistas acabam passando, principalmente na idade adulta. 

    A minha experiência pessoal com isso não é muito destoante da descrita acima. Procuro não deixar minha mente ociosa, recorrendo às leituras, ao videogame e, ocasionalmente, aos exercícios físicos, para que o corpo não fique totalmente inerte. Já tive algumas dificuldades em sair a céu aberto, com o sol castigando severamente meus olhos, que acabaram ficando acostumados a baixos níveis de luz. E meu sono está um tanto desregulado, um problema que estou tentando solucionar. 

    Evidentemente, não tenho como falar por todos os autistas leves, nem mesmo os de minha faixa etária. Contudo, a quem se identificar possa com a experiência descrita, é importante que procure se manter em atividade sempre, e use e abuse da tecnologia existente, com suporte da internet, para manter contato constante com seus amigos, a fim de não potencializar seu isolamento social com outros problemas, como depressão, ansiedade ou até ideações suicidas. Procure também manter um certo equilíbrio na forma como você está absorvendo as informações sobre a crise. É claro que estar ciente da realidade pode ser importante para tomar os cuidados efetivos e evitar mais contaminações e óbitos, mas às vezes lançar mão de atividades que lhe façam espairecer desta situação sufocante pode ser vital para evitar o agravamento destes problemas de saúde mental. 

    Uma outra preocupação não pode ser deixada de lado... E os autistas severos? É sabido comumente que a vida de pais e mães de autistas severos é muito atribulada, já que os desafios diários já são naturalmente muito grandes. Lidar com um ser humano extremamente dependente, como um autista de grau severo já é bastante complicado e exige muita paciência, amor e carinho dos pais e responsáveis. Mas e quando aparece uma doença que exige cuidados tão delicados com a higiene pessoal, como é o caso da Covid-19? Naturalmente, cuidados redobrados, mais atenção e mais paciência com o autista severo são absolutamente necessários. E em tempos de histeria coletiva, não se pode dar qualquer vazão para os conhecidos charlatões, que numa época dessas, certamente aproveitam o desespero de algum pai ou mãe desinformado para vender curas milagrosas para o autismo. Olho nestes casos também! 

    No mais, queridas e queridos, estimo que todas e todos vocês se cuidem bem, e mantenham o isolamento social. Sempre lutamos contra isso ao longo dos anos, como algo a ser evitado... mas agora, infelizmente, é necessário fazer isso. Para proteger as pessoas que amamos, para que depois, quando vencermos este maldito vírus, possamos sair e abraça-las com a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo. 


    Sobre o autor:
    Meu nome é Pádua, tenho 26 anos e sou autista. Sou fotógrafo e amo o que faço! Nas horas vagas, gosto de escrever, pois considero uma atividade super divertida e produtiva. Aproveitem a coluna sem moderação!

    Blog pessoal http://flertingcrazyness.blogspot.com 
    Instagram Pessoal https://www.instagram.com/greatwhitepadua/
    Instagram I https://www.instagram.com/antoniodepaduaimagem/ 
    Instagram II https://www.instagram.com/antoniodepaduaimagens/


  • Mensagem do Caboclo Águia Branca

    Mensagem do Caboclo Águia Branca

    Mensagem do Caboclo Águia Branca
     
  • Coluna do El Clandestine: O causo do Salvo-Conduto

    Coluna do El Clandestine: O causo do Salvo-Conduto

    O CAUSO DO SALVO-CONDUTO

    Saudações! Conforme prometido, eis-me aqui de novo para mais um dos nossos "causos". E como combinado, o nosso último causo tinha uma parte dois, uma continuação que na realidade é praticamente mais um causo. Vamos lá?

    Assim que descobri que apresentava todas as características de um autista, possivelmente Asperger (antes que a bronca venha: eu sei, mudou o nome, mas na época eu achava que não), eu acionei minha terapeuta pelo whatsapp. Ela era minha psicóloga desde 2007, com um pequeno "rompimento" de alguns anos, quando eu saí furioso do consultório, mas que eu não sabia o porquê até meses atrás. Fui até ela arrasado, aos prantos, parecendo personagem da Malhação - tipo a Nanda dos anos 90 - que descobriu que é adotado e não sabe quem é a mãe biológica ainda. (Desculpem-me pelas comparações "viajadas", galera. Mas é assim que eu encontro meios para dizer como me sinto! Hihihi...).

    No decorrer da sessão, eu disse o que minha esposa me relatou, falei dos meus filhos, das suspeitas da minha esposa para com eles e então ela resolve logo abrir o jogo:

    "- Acalme-se, Cland! Na realidade, seus filhos foram apenas uma IS-CA. A minha preocupação - e a da sua esposa - sempre foi com VO-CÊ! VOCÊ é o provável autista nesta história. Ainda não é hora de pensar nos seus filhos. Vamos começar a estudar o seu caso agora."

    (Deste ponto em diante, qualquer semelhança com o filme Coringa é mera coincidência, juro).

    Muita coisa já fazia sentido quando saí do consultório (na verdade já fazia quando eu entrei, desde a hora do "flashback" que eu tive nos dias anteriores à consulta). Vinham à minha mente lembranças de um episódio antigo do Chapolin, onde um casal queria atravessar de um país para o outro, e para isto precisavam de um "salvo-conduto" (uma permissão especial para transitar livremente para lá e para cá). Paralelamente à isto, minha mente (pensem naquele "capetinha" de desenhos animados) bombardeava o meu ego e a minha personalidade:

    "Quer dizer então que você, senhor Cland, sempre foi assim, brincalhão por NATUREZA, e não há nada de ERRADO nisso? Isso é SEU? "Essa tal neurodiversidade" é algo enraizado em você? ENTÃO PARA QUE SE SENTIR CULPADO? AGORA É HORA DE USAR ESTE "SALVO-CONDUTO" JOVEM RAPAZ! SEJA VOCÊ MESMO! PARTIU TROLLAR GERAL!!!"

    A partir daí, a minha timidez sumiu! Um sorrisão enorme surgiu no meu rosto, e o El Clandestine irônico, aparentemente sarcástico e brincalhão que vocês ouvem no podcast e lêem aqui surgiu. A porta para dizer e fazer a-ber-ta-men-te certas coisas foi aberta!

    Ah, que delícia! Que alívio! Finalmente eu pude usar o verbo contemporâneo trollar sem sentir peso na consciência, dentro e fora da websfera! Podia dizer o que pensava, podia opinar, podia imitar, podia SER EU MESMO e SEM CULPA!

    Porém, foi após alguns dias de "coringagem" que esposa e psicóloga novamente uniram seus esforços e me chamaram a atenção, para uma limitação que até então eu desconhecia. Por melhor que fosse brincar, zoar, dizer o que pensava, opinar, entre outras coisas, à minha maneira, as pessoas - neurotípicas ou neurodiversas - tinham outros sentimentos além de maldade, que eu não conseguia enxergar nas horas certas. A "cumadi" que eu tirei sarro por refrescar sua memória, lembrando dela anos atrás torcendo freneticamente aos berros para o marido ("VÁÁÁÁI BENHÊÊÊÊÊ!!! VÁÁÁÁÁÁI!!! UHUUUUUU!!!") no jogo de futebol da igreja - e das "coleguinhas" apontando o dedo para sua atitude - ficou constrangida, a ponto de ter uma recaída na depressão. O "cumpadi se-achão" que toca no louvor da igreja se envergonhou - e muito - após eu imitá-lo descaradamente, fazendo seus trejeitos com a boca e os pés, tocando as "modas gospel" todo santo domingo.

    Após estes dois episódios a esposa me deu um daqueles puxões de orelha legendários, e posteriormente a terapeuta veio puxando a outra orelha, para me explicar como funciona a Teoria da Mente. Ainda me comparando ao Coringa: Ainda bem que não me mandaram pra Arkham! Hihihi...

    Mas a moral do "causo de hoje" é a seguinte: Descobrir-se autista é uma bênção. Cai uma cortina e descobrimos quem, de fato, somos. Como eu disse, nos é entregue um passaporte para podermos utilizar facetas da nossa personalidade até então desconhecidas, incompreendidas. Mas ser diferente pode ser, de fato um superpoder, como disse Greta Thunberg, porém como disse Stan Lee através do tio do Homem-aranha, "com grandes poderes, vem grandes responsabilidades". Atualmente, os meus esforços se concentram em trabalhar minhas atitudes em terapia para me livrar dos efeitos nocivos da falta de sensibilidade com as relações humanas. São nocivos para mim, pois sempre tem os "coringas neurotípicos" tentando-se aproveitar das nossas fraquezas; Mas também são nocivos para eles, se não tivermos controle sobre nós.

    E, como já é de praxe, sempre fica um "fiozinho" para puxar para os próximos causos... ...em um deles, vou falar sobre o que o médico que me diagnosticou me disse a respeito do mau-uso do salvo-conduto.

    Abraços a todos! Eu voltarei!

    Sobre o autor:
    Sou o El Clandestine, TEA Aspie, 38 anos e fui Diagnosticado em julho de 2019. Vivendo e descobrindo um mundo onde tudo é novo, bem diferente do que achava "normal" 

  • Coluna do Aspie: Você é normal?

    Coluna do Aspie: Você é normal?

    Olá amigos,

    Bem vindos novamente a coluna do Aspie. Hoje vamos falar sobre essa palavrinha que atormenta muita gente: NORMAL.

    No meu perfil do Instagram, apesar de ter crescido muito em número de seguidores, eu tento sempre manter contato com as pessoas que me acompanham, seja para fazer rir, informar ou apenas ouvir. 

    Quem me segue por lá sabe que sempre procuro responder todo mundo e é dessas conversas que surgem muitas das sugestões sobre assuntos que são tratados por aqui e foi de um apelo que recebi essa semana que resolvi escrever sobre esse tema.

    "Minha família não aceita o meu jeito de ser e diz que eu tenho que me esforçar para ter uma vida normal. Eu não consigo ser normal!"

    Esse foi um trecho da mensagem e decidi discorrer sobre isso. Hoje, graças aos vários autistas que estão levantando suas vozes e ao contato direto e contínuo que tenho com as pessoas através da página do @aspiesincero, posso perceber várias características desse mundo dentro do espectro, juntar minhas experiências com o conhecimento de outros indivíduos e tirar algumas conclusões.

    Todos sabemos das dificuldades que nos cercam, das comorbidades que rodeiam o TEA, das crises sensoriais, das sobrecargas, disfunção executiva, enfim, das limitações que o Autismo nos traz. Eu muitas vezes falo das potencialidades e das vantagens relacionadas com o jeito neurodiverso de ser, mas hoje vou falar mesmo é dessas limitações!

    Na troca de experiências que experimento com outros autistas, homens, mulheres, adultos e adolescentes, não é raro que falemos sobre essas dificuldades. O que pode ser surpresa para muitos de vocês que me acompanham é que dentre todas essas coisas que citei, não foi citada o que é uma das maiores barreiras presentes na vivência de nós autistas, a falta de aceitação do nosso jeito de ser. 

    Isso mesmo, no topo da lista de dificuldades está a falta de compreensão alheia! Continuam querendo enquadrar o autista num padrão de normalidade neurotípico. Querem forçar e acredito que muitas vezes nem é por maldade (como no caso da família da psicóloga de quem recebi a mensagem) a pessoa autista a agir de uma maneira que simplesmente ela não consegue ou não é capaz. Não porque tem algo errado com ela, mas simplesmente porque o Autista é diferente e está tudo bem em ser diferente! 

    As pessoas precisam entender que a neurodiversidade é constitutiva da raça humana, desde que o mundo é mundo existem neurodiversos e só chegamos ao nível de desenvolvimento em que estamos por causa da diversidade em todos os sentidos.

    Com isso, para quem gosta de problematizar, não estou dizendo que o autista não deve buscar auxílio para amenizar as dificuldades e cessar comportamentos inadequados e/ou prejudiciais para sua integridade ou a dos outros. Apenas venho ressaltar que ser normal não é igual a ser neurotípico. Não é esse o padrão que todos devemos seguir. Temos que aprender a viver todos bem com nossas diferenças e se qualquer pessoa não entende isso então quem tem que se esforçar para ser normal não é o autista.

    Aceitação começa dentro de casa. Para existir inclusão de fato é necessário informação, entendimento e conscientização. Por isso o intuito desse texto não é "puxar a orelha" de ninguém. Espero apenas duas coisas: 

    - Primeiro: que as pessoas autistas como essa psicóloga que me enviou a mensagem, saibam que nós somos normais...

    - Segundo: que assim como quem está dentro do espectro procura entender e aceitar o jeito neurotípico de ser, procurem entender a nossa maneira de existir.


    Um abraço do Aspie e continuem seguindo o @aspiesincero no Instagram e mandando suas sugestões, perguntas e dicas de temas para a coluna. 

    Sobre o autor: @aspiesincero é codinome de um autista adulto que através de memes bem humorados busca propagar informações, conscientizar e tornar cada vez mais conhecido esse mundo do TEA. Gosta de escrever porque dá para fazer com apenas uma das mãos enquanto segura uma fatia de pizza na outra. Ler é seu hiperfoco mas rir de si mesmo é seu verdadeiro dom.
  • Coluna da Liga: O autismo e os relacionamentos interpessoais

    Coluna da Liga: O autismo e os relacionamentos interpessoais

    O autismo e os relacionamentos interpessoais

    Minha mãe disse que, quando eu ia à pracinha, mesmo que houvessem outras crianças, eu sempre brincava sozinha e sem sentar na areia: eu só tinha dois anos de idade. 

    Desde muito criança, sempre foi um desafio interagir com os demais e por muitos motivos: eu gostava de brincar sozinha, não possuía os mesmos interesses que os demais, não conseguia criar e manter vínculos por agir e ser, na essência, diferente.

    Lembro-me de tentar me aproximar das outras meninas, na 4ª série do ensino fundamental, mas elas me achavam bruta demais e logo me rechaçavam; eu tentava brincar com os meninos, pois, de alguma forma era mais natural para mim. 

    A pré-adolescência e a adolescência foram complicadas: as meninas já estavam falando em “ficar” com meninos, mas eu não tinha tanto interesse e, por algum motivo, não era interessante a quem olhasse. Mesmo hoje, na faculdade, tenho dificuldade em fazer e manter amigos pelos mesmos motivos de quando eu era criança, porém hoje sinto falto de ter vínculos, antes eu não sentia essa falta ou não me dava conta de que era tratada de modo diferente. 

    Hoje em dia tenho buscado por mais pessoas como eu, autistas, pessoas que minimamente pensam e sentem iguais a mim, talvez assim seja um pouco mais fácil de criar e manter vínculos: interagir com os iguais.





    Sobre o autor:
    Meu nome é Aline Caneda e faço parte da Liga dos Autistas

    Instagram https://www.instagram.com/liga.dos.autistas
  • Coluna do Pádua: Suicídio, um debate necessário

    Coluna do Pádua: Suicídio, um debate necessário


    Suicídio, um debate necessário

    Oi pessoal! 

    Esse é um texto bem diferente da maioria que vocês já viram ou verão de minha autoria por aqui. Minha predileção é a escrita sobre filmes, séries e/ou livros que eu tenha lido, para exprimir o que penso sobre tais obras, desde que haja alguma base fundamental para relacionar com a questão de saúde mental, seja de autistas ou de demais neuro-atípicos. 

    Hoje, porém, o assunto é um pouco mais pessoal... Falaremos sobre um assunto atualíssimo e necessário: a questão do suicídio. Sabe-se que o suicídio, atualmente, aparece na sociedade como um crescente problema de saúde pública. O motivo não é outro senão a taxa alarmante que apresenta em várias faixas etárias, sendo considerado um dos maiores causadores de mortes neste começo de século XXI. É verdade que a taxa mundial diminuiu entre 2010 e 2016 (queda de 9,8% de acordo com a Organização Mundial da Saúde), mas os números ainda são muito altos: a cada 40 segundos no mundo uma pessoa se suicida. 

    Mas... o que leva uma pessoa a querer tirar a própria vida? Aqui trarei tanto as minhas experiências pessoais quanto minhas crenças e convicções a respeito do suicídio. Tive ideações suicidas em alguns momentos da minha vida, por razões de desequilíbrio emocional e financeiro (vão checar o ótimo vídeo da Daniela sobre isso em seu canal do youtube clique aqui ), que me causaram um profundo descontentamento com a vida. É também um fator de risco não criar perspectivas sobre o futuro, deixando para viver a vida apenas como um dia após o outro. Mesmo que essas perspectivas não cheguem a se concretizar, é necessário que tentemos enxergar a nós mesmos daqui a 5, 10 ou 15 anos. Afinal, se não temos objetivos claros na vida, qual o sentido de vivê-la? 

    Mas vamos fundamentar um pouco mais essa discussão. O francês Émile Durkheim, um dos pais fundadores da sociologia, publicou em 1897 a obra “O Suicídio”, um vasto estudo de caso sobre as taxas de suicídio dos protestantes e católicos no final do século XIX e que, por incrível que pareça, pode nos ajudar a elucidar as taxas de suicídio atuais. Durkheim estabeleceu, em sua época, quatro motivos principais que poderiam levar uma pessoa cometer suicídio: 

    1) Senso de não-pertencimento: quando a pessoa não se sente pertencente ao seu contexto social, o que pode levar justamente à falta de sentido da vida, depressão, apatia e melancolia; 

    2) Altruísmo: a pessoa sente-se imbuída de princípios e crenças maiores que seus próprios – como os de grupos ou seitas; 

    3) Anomia: aqui Durkheim propõe que “anomia” seria um estado no qual uma comunidade, devido a distúrbios sociais e problemas econômicos gerais, poderia carecer de direcionamento para seus integrantes, o que lhes causaria potenciais estados de confusão mental; 

    4) Fatalismo: quando algum indivíduo é imbuído de uma conduta moral e métodos pessoais irredutíveis, cujas paixões pessoais acabam sendo oprimidas por estes aspectos. 

    Durkheim propôs ideias importantes, como a possibilidade de estudar a natureza de cada caso de suicídio e quando ele pode ou não se tornar um fenômeno social, de acordo com as particularidades do estudo de caso, bem como – na questão específica dos religiosos – a relação entre a integração com um ambiente de rígido controle social, como de fato era e é a religião – e o controle das taxas de suicídio, colocando para jogo a ideia de integração social, isto é, o senso de pertencimento a uma comunidade ou a um grupo. 

    Mas é possível relacionar esse estudo com os dias atuais através de algum dos quatro tipos de suicídio? 

    Em meu entendimento, isso é super possível, principalmente quando abordamos dois tipos específicos: o senso de não-pertencimento e o de anomia social. Não raro encontramos pessoas que não conseguem encontrar um meio social para chamar de seu e acabam cada vez mais isoladas e se sentindo menos pertencentes a um lugar. Pessoas assim podem de fato sofrer com depressão e portanto, cometer suicídio – lembrando que a principal doença que leva ao suicídio é a depressão, seguida por outros quatro grandes fatores de risco: transtorno bipolar, abuso de álcool e substâncias químicas diversas, esquizofrenia e transtorno de personalidade limítrofe (borderline). 

    A anomia social também é um conceito extremamente atual, ainda mais quando se trata das sociedades latino-americanas e em particular a brasileira. O Brasil, na contramão do mundo, cresceu 7% suas taxas de suicídio entre 2010 e 2016 (dados da OMS). Evidente que temos fatores de risco muito altos, como a facilidade do acesso a armas e/ou a substâncias químicas, mas o fato é que o Brasil vive uma das piores crises de desemprego de sua história. Os direitos trabalhistas foram dilacerados, os empregos gerados nos últimos anos são de baixíssima qualidade. Tudo isso pode parecer apenas “papo de política”, mas tem tudo a ver com a qualidade de vida da população (ou da falta dela). Uma população que está sujeita a baixa qualidade de vida e a uma comunidade de valores confusos e problemas econômicos graves como o Brasil nos dias de hoje, se encaixa muito bem no conceito de anomia social proposto por Durkheim. 

    Mais do que o suicídio em si ser combatido, seus fatores de risco precisam urgentemente ser coibidos. Afinal, não há melhor forma de combater a morte por suicídio do que melhorar a qualidade de vida das pessoas.


    Sobre o autor:
    Meu nome é Pádua, tenho 26 anos e sou autista. Sou fotógrafo e amo o que faço! Nas horas vagas, gosto de escrever, pois considero uma atividade super divertida e produtiva. Aproveitem a coluna sem moderação!

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  • Coluna do El Clandestine: O Dia do Flashback

    Coluna do El Clandestine: O Dia do Flashback

    O Dia do "Flashback"

    Saudações à todos! Muito prazer, aqui quem lhes escreve é El Clandestine.

    Me considero abençoadíssimo por nascer em 1981. Sou um homem com atualmente 38 anos, que foi diagnosticado em julho de 2019 e estou lhes redigindo este texto de uma cidade com cerca de cem mil habitantes, cravada em uma verdadeira "Montana" bem no interior do Paraná.

    Com a alegria de uma criança dos anos 90, daquelas que achou a mini estatueta de ferro no Kinder Ovo, aceitei o convite da Dani e pretendo aparecer por aqui, sempre que for possível, para lhes relatar os muitos dos meus "causos" que, juntos, formariam uma série de fazer Friends ficar com inveja.

    Para começar, nada mais sensato do que lhes contar como tudo começou e para conseguir esta façanha, eu vou ter que começar pelo "causo" do dia do "Flashback". Foi mais ou menos assim:

    Era uma vez (Meu Deus! Que coisa mais "carochinha", mas vamos nessa) um rapaz quase virando a linha dos quarenta anos. Em um certo domingo, faltam algumas horas para o Faustão gritar "oito e sete, bicho!" e a esposa olha para ele (acredite, por incrível que pareça, o rapaz é casado!) e diz:

    "- Amor, nossa filhinha caçula é tão quietinha. Fica tão 'na dela'... ...Será que ela não é autista? E mais, será que VOCÊ não é autista?"

    (Pã! Pã! Pãmmm...)

    "- MAS COMO VOCÊ OUSA?!? JAMAIS!!! QUE ABSURDO!!! GRRR..."

    Porém, uma força interna velha conhecida deste rapaz desde que ele nasceu (aqui o "causo" já descambou pra Star Wars...) lhe tira o sossego. Inquieto, minutos depois ele corre à fonte de toda sabedoria e conhecimento popular do universo, a Enciclopédia Bars... (...opa! Desculpa, década errada!) Ele corre para a barra de procura do Google no smartphone, e escreve "autismo". Tópicos aparecem:

    - "Desconforto durante contato visual..."
    (Tá, eu não gosto de olhar na cara dos outros, e daí? Normal, ué! Tem gente bonita, eu fico com vergonha. Tem gente feia, eu prefiro não olhar para não ser indelicado. E dai?)

    - "Dificuldade em fazer ou manter amizades íntimas"
    (Ah, eu sou assim porque sou filho único e ser antissocial faz parte do meu perfil. Não é porque sou autista! Arre, que coisa mais absurda!)

    - "Interesse extremo em um tópico em particular"
    Neste momento, ocorre uma pausa de uns trinta segundos e o rapaz volta seus olhos de modo assustado para o balcão da sala de jantar, onde deixa guardada sua coleção de cuias de chimarrão, tereré, seus pacotes de erva-mate (Ilex Paraguariensis) e tudo que seja ligado a isto. É muita coisa! A prateleira de bonequinhos de seu filho mais velho tem menos ítens... Tremendo, volta a ler:

    - "Dificuldade de Conversar" e "Monólogos frequentes sobre o mesmo assunto ou assuntos"... neste momento vem as falas do colega de trabalho que mais reclama dele e que, irritado, diz constantemente que está cansado de ouvir sobre erva-mate o dia todo...

    (Você tem alguma plataforma digital de música? Se tiver pára tudo, coloca Tears in Heaven do Eric Clapton e depois recomeça a ler).

    A partir dali, uma espécie de "flashback" (tipo aqueles que acontecem nos filmes, quando as lembranças aparecem da ordem mais recente para a mais antiga enquanto um barulho "tzuuuuuuuuum!" toca) praticamente abre uma fenda, traçando uma linha divisória entre duas eras. A era "Ahhhhh, então foi por isso?!?" e a era "Como será o amanhã???"

    Começam a vir à mente, as lembranças do passado. Começam a aparecer todos os momentos da infância e da adolescência. Começam a aparecer aquelas horas do dia (quase todos do ano letivo) em que o rapaz se sentava sozinho, em lugares afastados no pátio do colégio para brincar, para escrever, para "viajar" e fugir do clima estranho, cheio de gente "chata" que preenchia aquele lugar, todo santo dia. Começam a aparecer as imagens de cada uma de suas "musas inspiradoras", de suas "fiéis escudeiras" (até amigas pra ajudar a criticar elas tinham!) e dos consequentes foras (ou tôcos, dependendo da região, independente do nome doía) proferidos por elas, definindo-o o "esquisitão" da turma, na aparência, na maneira de se vestir, falar, andar, ser...

    E antes mesmo de terminar o "saldo de balanço", de contabilizar entre lado bom e lado ruim da história, ele chora, amargamente e do Google pula para o Whatsapp:

    "Querida terapeuta, tem horário para amanhã?"

    (Esta história continuará... Como já é de praxe em outras desventuras minhas: EU VOLTAREI!)


    Sobre o autor:
    Sou o El Clandestine, TEA Aspie, 38 anos e fui Diagnosticado em julho de 2019. Vivendo e descobrindo um mundo onde tudo é novo, bem diferente do que achava "normal"
    Instagram https://www.instagram.com/el_clandestine/
  • Coluna do Pádua: ATYPICAL

    Coluna do Pádua: ATYPICAL


    ATYPICAL

    É interessante como a frase “nada como um dia após o outro” faz tanto sentido em algumas situações. Neste caso, acredito ser possível dizer, parafraseando a máxima original, “nada como uma série após a outra”. E nesse contexto, é importante salientar a relevância de conteúdos como a série “Atypical” para a discussão sobre neuro-divergência nos dias de hoje.

    Explico: no mês anterior, escrevi para este mesmo site uma ácida crítica sobre “Os treze porquês”, uma série que incorria em sérios problemas estruturais sobre transtornos mentais e neuro-divergência como um todo. “Atypical”, porém, vai em uma direção completamente distinta. A série, também produzida pela Netflix e estrelada pelo ótimo Keir Gilchrist, traz a história de Sam Gardner, um jovem adolescente autista, e os desafios que ele enfrenta junto a sua família. O convívio familiar de Sam passa por alguns problemas, como a superproteção de sua mãe, as gozações de sua irmã (ainda que eventualmente ela o proteja) e, por vezes, o despreparo de seu pai para lidar com suas características. Inicialmente, Sam é escrito como o típico protagonista autista de qualquer produto desta seara: é estereotipado, cheio de manias quase caricatas e extremamente obsessivo com rituais sociais e comportamentos específicos. Vale ressaltar que nem todo autista possui esses estereótipos.

    No decorrer da série, vemos Sam se defrontar com várias situações com potencial para ativar fortemente seus gatilhos, e de fato eles são ativados com força. Porém, ao invés de “Os Treze Porquês”, o roteiro de “Atypical” é bem sofisticado, apresentando os problemas ao personagem de uma forma realista e tátil, mas sem ser perturbadora ou sádica para com ele ou o espectador. Tanto Sam quanto sua família têm a oportunidade de aprender com esses problemas de maneira razoável e pedagógica. O mais interessante é que também podemos ver a evolução de alguns personagens que de alguma forma são importantes na vida do protagonista, tanto de seu seio familiar quanto de fora dele. Seu pai passa pelas cinco fases do luto emocional, propostas por Kubler-Ross (negação, raiva, barganha, depressão e aceitação). Sua mãe, superprotetora, aprende aos poucos a deixar o filho caminhar com as próprias pernas. Também vemos um arco de desenvolvimento mais complexo da irmã de Sam, que teve a vida quase inteira dedicada a cuidar de seu irmão, mas que quer seguir seu próprio caminho. Ao decorrer da série, ela aprende a conciliar as duas responsabilidades de maneira saudável, fazendo amigos e companhias edificantes no processo. Temos também a psicóloga do garoto, Julia, que o auxilia em seus processos de autoconhecimento e autonomia em relação ao mundo que o cerca, mas que acabou também desenvolvendo um arco dramático próprio em relação a ele, o que leva a consequências inevitáveis sobre os caminhos de ambos os personagens. E temos, por fim, Zahid, seu amigo e colega de trabalho, e Paige, uma garota por quem Sam se apaixona. Ambos o ajudam em seu desenvolvimento quanto às relações amorosas.

    O fato é que “Atypical” não é uma série isenta de defeitos, por sua intensa estereotipia em relação ao protagonista e a alguns dos personagens que compõem seu círculo de convivência social. Contudo, sua elevada disposição para discutir os problemas pelos quais os autistas podem passar na sociedade é altamente edificante para propor soluções sobre como a sociedade pode aprender a lidar melhor com a neuro-divergência. Um conteúdo fenomenal e digno de atenção não apenas de neuro-divergentes, mas também de todos os de alguma forma interessados em saúde mental, como famílias e terapeutas.

    Nota: 9,0

    Sobre o autor:
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    Sinopse: Neste guia você não vai encontrar técnicas ou fórmulas mágicas, pois o que escrevi aqui são experiências reais e servem de base para que você entenda como meu cérebro autista funciona na prática. Aqui você será espectador e verá a vida através do olhar de quem sente na pele as mesmas sensações que você. Sempre com leveza e bom humor te ensino a não surtar nesse mundo onde a gente se sente um E.T.

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