• Coluna do Pádua: A polêmica série “Os Treze Porquês”


    A polêmica série “Os Treze Porquês” 

    A série “Os Treze Porquês” (13 Reasons Why, no original) é hoje um conteúdo singularmente polarizador. Inicialmente logrando muito sucesso entre todos os tipos de público, neuro-típicos, neuro-divergentes e até mesmo profissionais da saúde mental, a produção da Netflix causou inúmeros debates sobre a conscientização de problemas mentais, como ansiedade e suicídio. 

    Não foi para menos. A série de fato trazia uma aparente preocupação para com os neuro-divergentes e com isso, amealhou um sucesso inquestionável de público. Some-se a isso uma bem inspirada produção e fotografia e você tem um conteúdo aparentemente inspirador, que parece realmente querer ajudar as pessoas.

    Infelizmente, na minha opinião, só parece. 

    Com a devida vênia, eu vos digo, companheiros: “Os Treze Porquês” é uma cilada da pior espécie. A série descumpre todos os manuais de psicologia contemporânea. Na trama, a personagem principal Hannah Baker cria um contexto de vingança pessoal através do suicídio, não apenas assombrando todos aqueles que ela julga responsáveis pelo ocorrido, mas também torturando psicologicamente Clay, o co-protagonista, revelando apenas na décima primeira fita que o garoto não tinha culpa alguma, permitindo que o mesmo fosse atormentado por crises de consciência durante praticamente todo o processo. Há no mínimo duas cenas de estupro na primeira temporada, e uma explícita na segunda, com um garoto sendo violentado sexualmente com um teor gritante de detalhes. Há ainda uma cena de suicídio EXPLÍCITO ao final da primeira temporada e uma cena excruciante de incitação ao suicídio na segunda, onde um garoto encontra uma bala de revólver (!!!!) em seu armário da escola.

    Diante de todas essas barbaridades, o resultado não poderia ser diferente: profissionais da saúde, entre psicólogos e psiquiatras, não apenas fizeram o óbvio de condenar as chocantes e explícitas cenas acima referidas (o que levou a Netflix a excluir a famigerada cena de suicídio), mas também criticaram o fato de a série romantizar o suicídio, flertando com a narrativa de que Hannah poderia, no final das contas, estar agindo de maneira vilanesca ao fazer de seu suicídio, em última instância, um longo calvário para todos os que eram por ela considerados de alguma sorte culpados. Houve entre os personagens, certamente, quem merecesse algo assim? Pode até ser, se pensarmos sobre as circunstâncias. Mas isso não justifica de forma alguma que uma garota ou quem quer que seja faça de seu suicídio uma opera de vingança póstuma.

    Mas por que, afinal de contas, a tal “preocupação” com problemas mentais de “Os Treze Porquês” não passa de bravata? 

    Simples. Porque a cada episódio, a alegada preocupação é dissolvida no mar de barbaridades gráficas que a série mostra. Conteúdos acionadores de gatilhos para neuro-divergentes são disparados a cada cinco minutos. Além do mais, cada um dos treze episódios de cada temporada é imenso, com ritmo lento, fazendo a visualização da produção ser ainda mais excruciante para além da esfera da saúde mental. 

    Até quando a fetichização dos problemas mentais vai reinar incólume às custas da vida de pessoas reais, que têm esses problemas e que com isso acabam sofrendo tanto? O percentual da sociedade que consome “Os Treze Porquês” é expressivo (não à toa a série tem atualmente três temporadas e uma quarta está confirmada) e é a mesma que acaba tornando pior o mundo para os neuro-divergentes que eventualmente diz querer proteger. É a mesma que ignora autismo em adultos e as enormes taxas de depressão e suicídio na vida real.

    Por outro lado, há conteúdos superdivertidos, saudáveis, relevantes e que não deixam de ser eloquentes, como “Atypical”, também disponível na Netflix, que têm ganhado força nos últimos anos. “Atypical” pode ser sobre um garoto autista, suas conjecturas e incertezas acerca do mundo em que vive, mas é um ótimo exemplo de como produzir um debate consciente e firme sobre neuro-divergentes em geral, sem deixar de lado a delicadeza e a serenidade necessárias para tanto.

    Ser autista ou portador de qualquer outra condição neuro-divergente neste mundo é muito difícil. À luz dessas circunstâncias, antes de chocar e atentar a paz dos sentidos do público, devemos ter empatia com ele e tratá-lo com firmeza, mas sem deixar de lado a delicadeza.

    Nesse âmbito, ou se é “Atypical” ou se é “Os Treze Porquês”.

    Sobre o autor:
    Meu nome é Pádua, tenho 26 anos e sou autista. Sou fotógrafo e amo o que faço! Nas horas vagas, gosto de escrever, pois considero uma atividade super divertida e produtiva. Aproveitem a coluna sem moderação!



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