• Coluna do Pádua: Crítica do filme As cinco pessoas que você encontra no céu


    CRÍTICA

    As cinco pessoas que você encontra no céu
    (Título original: The Five People You Meet in Heaven)

    O cinema é uma arte diversa e cativante. Sua capacidade de envolver o público passa tanto pela execução das características técnicas do projeto – isto é, produção, roteiro, atuação etc - quanto pelas intenções por trás das mentes criativas por trás de cada filme. Existem filmes que capricham no aspecto técnico e se saem tão bem que arrancam emoções diversas do espectador (Mad Max: Estrada da Fúria, por exemplo), ou até os que conseguem extrair o máximo de ambos os aspectos (o caso de Coringa, o último longa que analisei para o site).

    Quanto ao presente filme, fica bem nítido que tudo gira em torno das ideias do roteirista e do seu objetivo no final das contas. E isso não é surpreendente, uma vez que “As cinco pessoas que você encontra no céu” é um telefilme (isso é, um filme feito para a televisão) roteirizado por Mitch Albom, a mente por trás de um livro de mesmo nome. Lançado em 2004, um ano após o lançamento de seu homônimo original, este filme tem nuances típicas de um filme lançado para as telinhas e isso pode deixar a desejar um pouco para públicos acostumados a filmes lançados para cinema. O filme é longo e poderia ser um pouco mais resumido. Mas para mim, que já vi obras como “It – uma obra prima do medo” (1990) e “Rose Red – A Casa Adormecida” (2002) a experiência não chegou a incomodar.

    O roteiro é interessante, principalmente pela sua não-linearidade, isto é, ele não segue uma história em linha reta do começo ao fim; por outro lado, sugere ao espectador, através dessa dinâmica diferente, uma nova perspectiva sobre a vida e a morte, e nisso se sai muito bem. Porém o autor pecou ao restringir bastante as propostas de reflexão de seu roteiro, sem deixar tanto espaço no próprio filme para o espectador pensar fora da caixinha. Há também as narrações prolixas e os diálogos, muito expositivos, que contribuem para o fechamento da ideia do filme em si mesma. Contudo, essas são nuances pequenas perto de alguns grandes acertos técnicos do filme, que contribuem de maneira relativamente sutil com a mensagem proposta. Além disso, a forma como cada espectador apreciará o filme a partir de suas próprias experiências pessoais poderá fazer com que tal significado se dilua em meio a várias possíveis reflexões, que podem ocorrer em paralelo à ideia específica do filme, para a qual nos voltaremos agora.

    O dia de finados, celebrado anualmente no dia 2 de novembro em nosso calendário, é uma data na qual algumas religiões, e em especial a católica, homenageiam os entes queridos que já faleceram. Para os católicos, é comum a crença de que o sofrimento é uma virtude, e assim essas homenagens geralmente são prestadas não apenas com deferência, mas também com certa melancolia. Falar dos mortos parece sempre um tabu e a morte, apesar de certa e inevitável para todas e todos, é sempre vista com receio.

    E é aqui que temos um dos propósitos mais fortes do longa. Albom propõe, em sua obra, um olhar positivo e otimista sobre a morte e tudo o que ela representa. Seguindo uma visão cristã dos conceitos de Céu e Inferno, ela nos mostra o protagonista Eddie “Manutenção” (muito bem interpretado por Jon Voight) a partir do momento de sua morte e sua jornada em busca das cinco pessoas que ele deveria encontrar no Céu.

    A partir dali o espectador é convidado a mergulhar, junto com Eddie, em uma resignificação da vida a partir do aprendizado do protagonista sobre as vidas que ele tocou, direta ou indiretamente e de forma positiva ou negativa. Cada uma dessas pessoas lhe aparece para ensinar, uma por uma, valiosas lições sobre variados aspectos inerentes à vida, como o valor do amor, do sacrifício e do perdão, tudo como parte de uma simples, porém singular e poderosa mensagem: sua existência, por mais simples que tenha parecido, teve um significado importante para todos os que ela passaram.

    Essa é uma perspectiva bem positiva sobre a vida, mas vai além. Essa forma de ver a vida possibilita todo uma resignificação sobre o que é a morte e o que ela representa para nós. Se geralmente temos um olhar pessimista e desalentador sobre a morte, este projeto traz um olhar extremamente otimista, não apenas nas ideias explicitadas pelo roteiro, mas também no visual do filme. A fotografia escura e fria parece mostrar como o personagem vê a si mesmo em vida, algo simples, fracassado e sem propósito, com certa nostalgia dos tons meio amarelados nos flashbacks. No céu, entretanto, é tudo muito colorido e vibrante, com planos de câmera que engrandecem a vida e obra do protagonista. Aos poucos, vamos entendendo que o filme nos propõe, finalmente, que a morte pode ser encarada com otimismo, suavidade e, por que não, até com um pouco de... humor?

    O projeto tem um viés religioso muito explícito, principalmente nas representações de céu e inferno. Mas, curiosamente, aqui temos pouco sobre o Deus cristão propriamente dito. Isso torna este longa muito mais aberto a interpretações outras que não o significado estritamente religioso e permite ainda mais ao espectador imergir na narrativa com base nas próprias vivências. Para mim, que sou ateu, o filme trouxe sensações mistas. Se por um lado não tenho a menor afinidade com os conceitos metafísicos/teológicos de céu e inferno, por outro me ocorreram diversas catarses pessoais, principalmente no desfecho. A conclusão é que não é necessário ser religioso para apreciar este filme e absorver a experiência que ele proporciona. Na verdade, talvez a experiência possa vir até a incomodar alguns religiosos, pela forma positiva e até engrandecedora com que ele retrata o post mortem.

    Contudo, a quem se permitir experimentar este longa, uma bela jornada de resinificação da vida e da morte, da morte e da vida, lhe aguarda.

    Nota: 8,0

    Sobre o autor:
    Meu nome é Pádua, tenho 26 anos e sou autista. Sou fotógrafo e amo o que faço! Nas horas vagas, gosto de escrever, pois considero uma atividade super divertida e produtiva. Aproveitem a coluna sem moderação!

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