• Coluna do Pádua: Crítica do filme Coringa


    “Espero que minha morte faça mais centavos do que minha vida.”

    Não há outra forma de começar essa crítica senão falando que “Coringa” é uma obra de arte fenomenal. Fenomenal mesmo, em todos os possíveis sentidos da palavra. Parte pelos feitos que consegue alcançar em todos os aspectos de produção e arte, parte pelos fenômenos reacionais propriamente ditos que o projeto consegue extrair de seu público. É um filme que consegue extrair da plateia as mais diferentes reações e sensações.

    O roteiro dá uma aula de arcos dramáticos a tal ponto que praticamente não sentimos a mudança de atos, exceto por alguns momentos-chave muito específicos e marcantes, que envolvem diretamente as mudanças de personalidade e comportamento do protagonista. Todo o desenvolvimento, ainda assim, é incrivelmente gradativo e se dá tão naturalmente que não é difícil o espectador por muitas vezes se pegar cheio de empatia para com as dores existenciais e até por algumas atitudes de Arthur Fleck. 

    Minha preocupação antes do filme seria sobre uma eventual romantização ou pior, transformação do vilão em herói pelos olhos da direção. Felizmente, essa preocupação não se concretizou. A direção de Todd Phillips é perfeita e dá coesão a todo o projeto, elaborando toda a estrutura narrativa do filme, a meu ver, a partir de dois pontos sumariamente importantes: uma perspectiva equilibrada sobre as ações e reações do personagem: isto é, vemos um homem tendo uma vida ruim e dias terríveis. O diretor simplesmente nos mostra as consequências disso, tanto o agravamento dos problemas mentais de Arthur Fleck quanto o caos que ele acaba por provocar a todos à sua volta. Por outro lado, há também o olhar narrativo de Fleck sobre sua própria história e isso favorece a variedade de reações possíveis ao projeto como um todo; temos uma mudança gradativa do olhar do protagonista sobre si mesmo e isso faz o filme como um todo crescer. 

    E aqui temos um trabalho de fotografia extremamente eficiente, que começa em planos melancólicos e opressores sobre o protagonista, com cores esverdeadas que lembram algo sujo e mal-acabado, e vão se transportando gradativamente para tons mais amarelados e coloridos a medida que o olhar do personagem sobre si mesmo vai se tornando menos opressor e mais libertador, e aqui temos também planos engrandecedores e algo empoderadores. E não se enganem: isso é proposital da direção para simular não um apoio ao enlouquecimento de Fleck, mas sim sua própria perspectiva. Ele se vê assim. Ele quer se ver assim. E isso tem efeito na perspectiva do espectador.

    E isso nos leva à cereja deste delicioso bolo: as atuações. O trabalho de Joaquin Phoenix neste filme é simplesmente extraordinária. Seu Arthur Fleck é desajeitado e atormentado, mas ainda assim tenta ser uma boa pessoa, como vemos no começo até meados da metade do filme. Sua composição de personagem vai mudando gradativamente até chegar num ponto que, quando mal percebemos, já estamos vendo o Coringa propriamente dito em tela, pois é muito “natural” e verossímil a transformação. A partir do momento que vemos finalmente o Coringa, tudo é muito mais colorido, os planos o engrandecem e a performance do ator é ainda mais fantástica. A sensação que eu tinha durante a projeção era de que eu queria ver mais disso. 

    Mas há uma questão inquietante sobre as consequências desse projeto e é aqui que tudo se torna mais difícil nesse texto, pois há algumas camadas de subjetividade que não podem nem devem ser ignoradas. Afinal de contas, é possível simpatizar com o Coringa?

    Por um lado, temos todo o estudo de personagem feito em diversas camadas objetivas e emocionais; Arthur Fleck tem problemas graves. um distúrbio que o faz rir descontroladamente de forma involuntária e incompatível com seu estado emocional, sofre bullying gratuito, é debochado pelos colegas no trabalho e depois pelo comediante que ele enxergava quase como uma figura paterna. Há ainda a descoberta sobre os problemas mentais que sua mãe tinha, as agressões físicas a que ela o submetia junto a um namorado... Adicione-se ainda inúmeras camadas de desdém por parte da sociedade, o que vai desde a assistente social que não o escuta adequadamente quando ele fala de seus problemas até sua demissão do trabalho. Em suma: É uma mente muito ferrada, a do nosso protagonista. Aposto que cada um de nós, o público, se identifica com, pelo menos, um desses problemas pelos quais Arthur passa, pois são problemas endêmicos da sociedade que permanecem até hoje, ainda que, nos dias de hoje, haja muito mais cuidado e tentativas de sensibilização e conscientização de tais problemas.

    Quando o personagem vai se transformando em Coringa, porém, a armadilha do roteiro para o espectador dispara. Mas aqui a questão se torna ainda mais gritante: é possível se identificar com o Coringa? Para quem passou pelos mesmos problemas que ele e não consegue enxergar absolutamente nada além da catarse emocional e existencial provocadas por estas cenas, a resposta é sim, já que o personagem cresce a partir do momento que perde qualquer limiar de sanidade e razoabilidade e começa a enxergar sua vida, em suas próprias palavras, como uma “comédia”, em uma clara referência ao Comediante, da HQ “Watchmen”, de Alan Moore. 

    Contudo, de acordo com o escrutínio moral e ético que deveria ser comum a todos e universal, que pauta e permeia o pensamento civilizatório, a resposta óbvia é NÃO. Como dito antes, o filme mostra os problemas do personagem, que causam sua transformação e o que vemos são as consequências disso. Há a intenção de causar essa sensação de catarse quando o personagem se liberta? Como pegadinha do roteiro para fazer o espectador cair numa interpretação errada, talvez sim. Mas este não é um filme fácil de digerir ou contemplar e sua variedade de possíveis significados exclusivamente pessoais é uma das coisas que o tornam fascinante, mas perigoso. Não pelo projeto em si e sim por estas mesmas possíveis identificações, já que o Coringa não é um herói e nem mesmo um anti-herói; é um VILÃO. Todas as atitudes vingativas que ele toma a partir do momento em que se transforma são, sim, vilanescas, quer você queira, quer não.

    O que precisamos entender, no final das contas, é que a transformação de Arthur Fleck em Coringa não tem absolutamente NADA de comédia; ao contrário, é a verdadeira TRAGÉDIA do filme. Este não é um projeto feliz, nem humorístico; “Coringa” é um filme triste e que culmina numa tragédia. Uma tragédia moral. Uma derrota da sociedade como um todo. Uma sociedade que permite que seus membros se afundem a ponto de enlouquecer, está destinada ao fracasso. Pois uma hora, essa loucura se volta contra quem? A própria sociedade. O Coringa não é uma vítima: é um produto da sociedade. E é exatamente por isso que este filme é necessário. Pode não ser o filme que queremos, mas é um filme que, sem dúvida, precisamos. Chamar a sociedade para uma reflexão sobre desigualdades sociais e sobre como tratamos pessoas doentes é algo que faz com que o filme ultrapasse a contemporaneidade fictícia da telona para atingir justamente... os tempos atuais! Afinal, qual época foi tão repleta de discussões sobre saúde mental e desigualdades sociais como a que vivemos atualmente? 

    A questão que resta é... Quando vamos realmente aprender a... cuidar?

    Coringa é um filme fenomenal. Uma obra fascinante e necessária, que junta dois fenômenos em um e se torna um evento de debates sumariamente importantes sobre a sociedade.

    Nota: 10,0

    Assista o trailer oficial legendado clicando aqui


    Sobre o autor:
    Meu nome é Pádua, tenho 26 anos e sou autista. Sou fotógrafo e amo o que faço! Nas horas vagas, gosto de escrever, pois considero uma atividade super divertida e produtiva. Aproveitem a coluna sem moderação!

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    Sinopse: Neste guia você não vai encontrar técnicas ou fórmulas mágicas, pois o que escrevi aqui são experiências reais e servem de base para que você entenda como meu cérebro autista funciona na prática. Aqui você será espectador e verá a vida através do olhar de quem sente na pele as mesmas sensações que você. Sempre com leveza e bom humor te ensino a não surtar nesse mundo onde a gente se sente um E.T.

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