• Coluna da Erika - A Dificuldade de se assumir autista na vida adulta



    A Dificuldade de se assumir autista na vida adulta


    Uma das grandes dúvidas do autista adulto é: “Devo me assumir como TEA para as pessoas que fazem parte da minha vida?”

    Na minha cabeça, isso deveria facilitar e muito o convívio e o entendimento de ambos os lados e suas diferenças. Logo, falar que está dentro do Espectro deveria ser um facilitador e uma coisa excelente para todos, até para os neurotipicos. Contudo, não é tão simples assim. Nossa sociedade é tão treinada a usar máscaras, a maioria das pessoas performa um personagem, uma versão melhorada de si mesmo o tempo todo. Acho que alguém admitir que tem alguma diferença e/ou dificuldade em alguns casos assusta a maioria das pessoas. Além disso, alguns acham que você está se fazendo de coitado e tentando tirar alguma vantagem ou quer se escorar em alguém. 

    Admita-mos que a maioria das pessoas neurotipicas não quer saber ou entender como uma pessoa TEA pode ser diferente e que nem tudo o que ela faz tem o mesmo significado que para uma pessoa "comum". Infelizmente, se a pessoa não possui alguem da família dentro do Espectro normalmente não possui nenhuma curiosidade sobre o tema. 

    Na verdade, ao contrário de nós, que gostamos muitas vezes de colecionar conhecimento sobre várias coisas que muitas vezes nem vamos usar, a pessoa "comum" muitas vezes só foca naquilo que pode usar em seu favor ou que lhe é útil de maneira mais imediata ou num prazo médio. Eles não estão errados, invejo muito essa capacidade (pois, em mim é uma das minhas dificuldades), mas eu acho que isso limita a achar que tudo que é "válido, normal, certo... real" é apenas o que eles podem entender de imediato.

    Por causa desse posicionamento dos neurotipicos, nós dentro do TEA sofremos muito na vida adulta por conta das ideias pré-concebidas, básicas, errôneas, sem contexto e esteriotipada, que todos têm sobre autismo. A ideia de que o "autismo é algo que acontece com crianças, meninos, que tem stims (esteriotipias) muito grandes e obsessivas, que não tem empatia, são claramente distantes. Muitos deles gritam causam "problemas" e não se expressam muito bem, alguns são violentos. Ahhh... alguns deles ficam arrumando as coisas".

    Muitas dessas ideias soltas que são de "conhecimento geral" sobre o autismo possuem um fundo de verdade, para alguns de nós, mas não necessariamente tudo, nem do jeito preconceituoso e limitador que é colocado. Eu sou uma mulher, sou adulta, tenho minhas obsessões temporárias, mas sou capaz de sentir empatia, até mais que muitos neurotipicos. Por ser adulta já consegui aprender a lidar com outros aspectos comportamentais que os pequenos não aprenderam ainda, às vezes fico muito irritada sim, mas não quer dizer que seja violenta, entendem? O contexto, a paciência, até a boa vontade de ler esse texto pode ter ajudado você pessoa "comum" a ver que não somos arquétipos fixos. Somos humanos e como seres humanos temos nossas diferenças e particularidades, não somos uma ficha fixa que preenche todos os requisitos.

    É algo comum se temer o diferente, faz parte do nosso senso de auto preservação, entretanto, não nos temam, não nos excluam de pronto. Quando alguém adulto vier falar com você que é autista ou Asperger (alguns ainda usam esse nome), tente tirar 15 minutos de coração aberto e busque entender o nosso lado. Não estamos tentando tirar vantagems, abusar da boa vontade, nos fazer de coitados ou estamos mentindo (sim, tem gente que pode mentir e tirar vantagem, mas isso é em tudo na nossa vida. Nós autistas sabemos bem como é ser honesto demais e ser passado para trás ou se aproveitarem da nossa boa vontade em ajudar e não entender que estão nos explorando... mas falaremos disso em outro momento).

    Existem pessoas adultas dentro do Transtorno do Espectro Autista, não temos uma cara única. Podemos ser a pessoa do seu lado no ônibus que está com as mãos no ouvido durante uma freada barulhenta (e você julga como fresco), podemos ser seu colega de trabalho que usa fone 80% do tempo e às vezes fica cantando baixinho ou se balançando (e você julga como vagabundo que não está trabalhando sério), podemos ser o crush pra quem você já fez vários joguinhos de sedução e a pessoa continua te olhando como se não entendesse os sinais (e sim, normalmente, não entendemos sutilezas... melhor falar logo).

    Resumo da opereta de hoje: Não desconfie de nós, foi muito difícil chegar ao ponto de se assumir e fizemos isso porque confiamos que podemos ajudar do nosso jeito sendo honestos conosco e com todos. Estamos buscando fazer o nosso melhor, não colabore para que voltemos a nos esconder, isso fará tudo mais dificil para todos nós, porque os neurotipicos não vão entender o por que de nossos atos e nós não poderemos contar com suas habilidades para dar uma ajudinha e fazer toda a comunidade ir em frente, seja no trabalho, em casa, na escola. Com todos crescendo juntos tudo dará certo e nosso mundo será melhor, um mundo mais humano, como nós autistas e como vocês as pessoas "comuns".

    Espero que tenha contribuído para uma reflexão com esse texto. Para quem quiser me achar é só procurar no twitter @being_erika e no instagram @beingerika

    Até a próxima 😉
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    Sinopse: Neste guia você não vai encontrar técnicas ou fórmulas mágicas, pois o que escrevi aqui são experiências reais e servem de base para que você entenda como meu cérebro autista funciona na prática. Aqui você será espectador e verá a vida através do olhar de quem sente na pele as mesmas sensações que você. Sempre com leveza e bom humor te ensino a não surtar nesse mundo onde a gente se sente um E.T.

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