Vida de Autista

Eu sou Autista

Daniela Sales


Eu sou a Dani e no final de 2017 ouvi da minha terapeuta o diagnóstico que mudou minha vida. Fui diagnosticada com TEA - Transtorno do Espectro Autista, no meu grau antes chamado Síndrome de Asperger.
Após o diagnóstico, aos 42 anos de idade, finalmente conheci a mim mesma e então resolvi abraçar a causa do autismo na vida adulta. Existem milhares de autistas sem o diagnóstico sofrendo nos consultórios, usando antidepressivos, ansiolíticos e toda e qualquer droga que torne a vida mais leve.
No Instagram, no YouTube e aqui no site conto um pouco das minhas experiências e descobertas sobre esse mundo tão fascinante do autismo. Ser diferente é normal :)

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Consultoria Empresarial, Palestras e Treinamentos


A consultoria é feita por mim, autista, grau leve com formação em Administração de Empresas e ampla experiência no mercado. É voltada para microempresas, empresas de pequeno porte e MEI (Microempreendedor individual) de qualquer segmento de atuação. Um grande diferencial é minha visão como profissional e empreendedora dentro do TEA. Essa visão é ideal para o autista que deseja se tornar empreendedor ou que já tem uma empresa ou ainda para a empresa que deseja incluir o autista como público alvo ou que tem ou quer ter profissionais autistas nas vagas PCD. Palestras de conscientização em empresas ou escolas e treinamentos para inclusão do profissional autista nas organizações.
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  • 18 de junho - Dia do Orgulho Autista

    Orgulho Autista - Dia 18 de junho

    Olá amigos do Aspie! Dia 18 de junho é uma data mais do que especial para nós autistas. Dia do orgulho, dia de ressaltar o nosso jeito de existir no mundo, dia de pedir respeito... nosso dia! 

    A data começou a ser comemorada há mais de uma década por iniciativa do grupo Aspies for Freedom para ressaltar as qualidades das pessoas autistas e apresentar uma visão do autismo na luz da cultura da neurodiversidade. 

    Mas e esse orgulho é do Autismo ou do Autista? O Autismo é um espectro, é diferente para cada um, é um diagnóstico, é um laudo, um código no CID (código internacional de doenças) ou no DSM (manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais) mas ele não define ninguém. Já o Autista é a pessoa, é o cidadão, é o filho, é o pai, é a mãe. É o indivíduo e é único! 

    O Autista supera, luta, sofre preconceito, muitas vezes sente-se sozinho mesmo em uma multidão. Ele aprende, ele ensina. O Autista sente, tem empatia, sofre por ele e pelos outros. É incompreendido, tem sua fala abafada, grita! O Autista precisa e quer ser ouvido. Pode ser protagonista de sua própria vida. É capaz! Luta por seus direitos e tem potencial para alcançar o seu máximo. Clama para que entendam que o máximo de cada um pode estar aquém ou além das expectativas do que é considerado "normal" e tudo bem com isso. 

    Normal é chato, legal é ser diverso, é aceitar a diversidade como um todo. Não existe o todo sem a diversidade. O autista existe, insiste, é capaz de amar o outro e a si próprio. Então meus amigos, o Orgulho é Autista, de ser quem somos e como somos, independentemente de rótulos, esteriótipos ou limites. 

    Viva o Autista... Que orgulho!!!

    Sobre o autor: @aspiesincero é codinome de um autista adulto que através de memes bem humorados busca propagar informações, conscientizar e tornar cada vez mais conhecido esse mundo do TEA. Gosta de escrever porque dá para fazer com apenas uma das mãos enquanto segura uma fatia de pizza na outra. Ler é seu hiperfoco mas rir de si mesmo é seu verdadeiro dom.
  • Coluna do Pádua: O autismo e a teoria do Caos ou Como lidar com o não-controle

    O Autismo e a teoria do Caos ou Como lidar com o não-controle

    É sabido, entre outras coisas, que a pessoa autista possui uma tendência a estrutura rígida de pensamento. Isso é observável por vários aspectos; das rotinas de afazeres diários às quais ela geralmente acomoda em sua vida, passando por eventuais manias que desenvolvam até a forma como ela lida com as divergências ou imprevistos com as quais eventualmente pode se deparar. Assim, a estrutura rígida de pensamento geralmente leva o autista a se desenvolver muito bem dentro de ambientes rígidos, com regras especificadas e nos quais haja o mínimo possível – ou zero - de alterações. 

    Mas... O que acontece quando esse controle... some? Escafede-se? Essa indagação nos leva ao seguinte ponto do texto.

    Há um campo de estudo na matemática que investiga as possibilidades de se manter o controle sobre sistemas complexos e monitorados. Esse campo produziu o que se convencionou chamar de Teoria do Caos. Essa teoria explica justamente a impossibilidade de manter o total controle sobre esses sistemas, uma vez que há muito mais variáveis atuando sobre esse sistema do que simplesmente as controladas (ou controláveis). Essa teoria foi popularizada em filmes como Jurassic Park (1993) e Efeito Borboleta (2004), que mostraram mais ou menos, em acordo com a Teoria do Caos, como sistemas altamente complexos – e extremamente monitorados, caso do parque temático do filme de Steven Spielberg – seriam extremamente vulneráveis a drásticas mudanças a partir de alterações, por menores que sejam, nas condições iniciais desses sistemas. 

    Autistas, como já dito, possuem rigidez de pensamento. Isso pode ocasionar dificuldades em situações imprevisíveis ou sistemas complexos com um ou mais aspectos caóticos. Uma vez nosso cérebro sendo bastante apegado a padrões, seja de rotina ou de comportamentos, lidar com situações que fogem ao costume e/ou ao controle, parcial ou totalmente, pode apresentar diferentes níveis de dificuldade. Tendemos a rejeitar e nos frustrar com situações que não nos sejam costumeiras ou controláveis. Assim, o conhecimento acerca da teoria do caos poderia torná-la uma importante aliada do autista em sua estratégia de convívio com a sociedade. 

    A pessoa autista, como todo ser humano, fatalmente terá de lidar com aspectos caóticos na vida em sociedade, podendo variar de acordo com o nível de interação que esta impõe. É bem verdade que a sociedade, em seu eixo estrutural, é um ente organizado, com regras sociais, morais e éticas a serem seguidas por todas as pessoas que nela estão inseridas; há, no entanto, duas inconveniências: a primeira é que, apesar dessa organização, a sociedade é feita por seres humanos e estes podem ou não possuir a rigidez de pensamento comum nos autistas. Assim, atrasos a compromissos, esquecimentos ou a mera desconsideração dos outros para com nossas regras pessoais, podem ser mais comuns do que gostaríamos. E a segunda é que há aspectos naturalmente incontroláveis da existência como um todo e da natureza, tais como meteorologia e doenças. 

    Um exemplo pessoal: em 2012, me preparava para apresentar um seminário em grupo na universidade, mas acabei acometido por uma doença cutânea que me forçou a fazer uma cirurgia e ficar duas semanas em casa, no final de semana anterior ao seminário! A frustração foi imensa, e por muitos dias fiquei a imaginar como poderia resolver isso. No final, deu tudo certo e as coisas se ajeitaram ao passo em que fiz um fichamento de resumo sobre o assunto ao qual iria apresentar no seminário, e posteriormente consegui a aprovação na disciplina. Uma situação que me fugiu totalmente ao controle, resolvida com calma, parcimônia e a aceitação de que as coisas poderiam dar certo mesmo sem que eu tivesse controle delas.

    O fato é que a Teoria do Caos pode sim ser uma grande aliada, não apenas para nós autistas, mas de qualquer pessoa que possua dificuldades em aceitar que não pode controlar tudo na vida e existência. Não é fácil, afinal, estamos lidando com uma ideia que, em um primeiro olhar, nos tolhe em vez de amplificar as nossas possibilidades. Mas se olharmos bem, podemos ver que não é tão difícil assim, já que é possível adequarmos nossa existência a essa ideia sem grandes traumas.

    Afinal, como diz o Dr. Ian Malcolm em Jurassic Park...“A vida encontra um jeito.”


    Sobre o autor:
    Meu nome é Pádua, tenho 26 anos e sou autista. Sou fotógrafo e amo o que faço! Nas horas vagas, gosto de escrever, pois considero uma atividade super divertida e produtiva. Aproveitem a coluna sem moderação!

    Blog pessoal http://flertingcrazyness.blogspot.com 
    Instagram Pessoal https://www.instagram.com/greatwhitepadua/
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    Instagram II https://www.instagram.com/antoniodepaduaimagens/

  • Coluna do Aspie: Neurodiversidade e Aceitação


    Olá amigos do Aspie,

    Cada dia mais a neurodiversidade está em evidência. Quem vive dentro dessa realidade do TEA se depara quase que diariamente com essa palavra e, felizmente, até para quem não tem algum familiar ou conhecido dentro do espectro do autismo, o termo começa a ficar conhecido. Mas o que é neurodiversidade de fato e por que é tão importante? 

    Hoje vou falar um pouco sobre esse assunto que não é tão simples quanto parece e o porquê de ser tão importante que as pessoas entendam e aceitem esse conceito. 

    Foi uma socióloga, jornalista e pessoa autista australiana, Judy Singer, quem cunhou tal termo, no final da década de 1990, através de sua tese de doutorado que mais tarde até se transformaria em um livro de nome “ Neourodiversity: The Birth of an Idea” , e depois disso o conceito foi se popularizando cada vez mais. 

    A ideia central é simples, ela prega que o desenvolvimento neurológico atípico, ou diverso, seria algo esperado dentro do desenvolvimento biológico da raça humana, portanto, algo a ser aceito e levado em conta na constituição da espécie, não algo a ser corrigido ou consertado na pessoa para que ela se adeque a um padrão de normalidade tido como típico. 

    Como eu disse, a ideia é simples, mas a prática nem tanto. Desde que o mundo é mundo, existem pessoas neurodiversas e se formos buscar na história podemos citar vários exemplos de pessoas notáveis que se enquadravam nesse desenvolvimento atípico, chego a duvidar que teríamos alcançado esse nível de desenvolvimento em que estamos se não fosse essa diversidade. 

    Também é verdade que, seja por falta de conhecimento, por preconceito, ou de tudo junto, o ser humano não lida bem com as diferenças e há não muito tempo, crianças autistas eram acorrentadas em manicômios e segregadas da sociedade, e mesmo quando não chegavam a ser internadas e lá deixadas, eram separadas do convívio das outras, seja nas escolas ou em qualquer outro ambiente comunitário. 

    Hoje, não basta apenas inserir a pessoa autista com leis de inclusão onde ela tem o direito de escolher em qual escola estudar, ou buscar garantir acesso as diversas terapias que visam ajudar no desenvolvimento do individuo e possibilitam uma vida adequada na sociedade. 

    A cultura neurodiversa prega muito mais do que isso. Essa tem como premissa um olhar social sobre a deficiência em detrimento a uma abordagem exclusivamente médica da mesma. Busca não uma cura para a pessoa autista ou para o autismo, mas sim aceitação e diz que não é apenas a pessoa com desenvolvimento atípico quem necessita de tratamento e sim a sociedade como um todo, pois reitero, não basta que o indivíduo atípico se adeque e sim que toda a comunidade se ajuste às várias maneiras de existir e a todas as configurações cerebrais. 

    Claro que com isso não estou dizendo que leis e políticas de inclusão não são importantes. Mais do que isso, são muito úteis e necessárias pois são o caminho para esse fim que busca o movimento da neurodiversidade e são instrumentos de equidade. Também, essa abordagem não é excludente, e sim complementar ao modelo médico, pois a medicina atua atrelada aos conhecimentos científicos e baseada em evidencias contribuindo para um desenvolvimento pleno. 

    Exemplificando e trazendo para o mundo real o porquê de tamanha importância de todo esse conceito, podemos observar alguns dados recentes divulgados em estudos científicos e pesquisas.

    Dados mostram que quase 85% das pessoas autistas estão fora do mercado de trabalho, mesmo tendo potencial para desenvolver um ótimo trabalho nas mais diversas áreas. 

    Publicado na prestigiada revista Lancet Psychiatry em 2014, por Segers e Rawana, um estudo realizado com autistas mostrou que 66% dos participantes relataram pensar em suicídio e que 35% destes, tentaram ao menos uma vez no passado, suicidar-se. Outro estudo publicado em 2017, duas pesquisadoras do Reino Unido, Sarah Cassidy e Jacqui Rodgers, mostra que dados preliminares acerca do tema suicídio no TEA é alarmante. Hirvikoski e colaboradores corroboram esses fatos em outro estudo reportando o suicídio como uma das principais causas de morte prematura em pessoas autistas. 

    Mas por que essa incidência tão grande no TEA? Uma revisão realizada por Richa e colaboradores em 2014 mostrou os principais fatores de risco em indivíduos autistas. São eles:

    • Distúrbios de comportamento (comportamentos opositores, agressivos, explosivos e impulsivos).
    • Sintomas depressivos (a depressão é uma das comorbidades mais presentes no autismo). 
    • Histórico como vítima de bullying. 
    • Histórico de abuso sexual (dados mostram que em pessoas com deficiência a incidência desse tipo de abuso é mais que o dobro que na população geral e que em autistas é ainda maior). 
    • Eventos de estresse emocional (comuns no autismo relacionados a eventos como mudança de rotina ou de rituais específicos por exemplo). 
    • Faixa etária (principalmente adolescência). 
    • Tendência ao isolamento físico e falta de possibilidade de interação com os pares da mesma idade. 

    Agora notem dentre os principais fatores que nem tudo tem a ver com o TEA. Logo de cara podemos observar que o bullying, abuso sexual e faixa etária não são inerentes ao autismo sendo os dois primeiros relacionados a intolerância e maldade alheia, e o terceiro a um fator biológico. A tendência ao isolamento físico apesar de ser um dos principais déficits nos transtornos do espectro do autismo, não se dá apenas pela dificuldade do autista em socializar como também pela falta de aceitação das diferenças e muitas vezes pela insistência de que a pessoa atípica se comporte de maneira típica, algo que além dela não ser capaz, causa sofrimento pela frustração ao tentar e não conseguir. 

    Até mesmo os distúrbios de comportamento e os eventos estressores, que são diretamente relacionados ao autismo, não tem seus alicerces apenas baseado nisso, pois a agressividade, oposição e impulsividade podem ser abrandadas quando existe acesso universal as intervenções adequadas, o que não é uma realidade principalmente em países como o Brasil. Já as mudanças de rotina e rituais que também são intimas do TEA, têm a possibilidade de serem amenizadas com práticas de inclusão e adaptação melhores trabalhadas, tanto na escola quanto no mercado de trabalho por exemplo. 

    Com tudo isso fica fácil entender porque a depressão, que também não é algo de dentro do autismo, está tão presente e como tudo isso culmina nessa alta taxa de mortes precoces por suicídio. 

    Por isso, não basta falar em neudiversidade, é preciso praticar, é preciso aceitar! Incluir é um dever de todos e não apenas de políticas públicas e de instituições. Prédios e leis não incluem; pessoas incluem! 

    É preciso ouvir os autistas, promover a auto aceitação e o orgulho de ser como é, bem como a aceitação de todos. Não busque a cura e sim o cuidado. Promova o desenvolvimento das potencialidades e a atenuação das dificuldades. Como diria a espetacular Temple Grandin, “ o mundo precisa de todos os tipos de mentes!”

    Um abraço do Aspie e continuem seguindo o @aspiesincero no Instagram e mandando suas sugestões, perguntas e dicas de temas para a coluna. 

    Sobre o autor: @aspiesincero é codinome de um autista adulto que através de memes bem humorados busca propagar informações, conscientizar e tornar cada vez mais conhecido esse mundo do TEA. Gosta de escrever porque dá para fazer com apenas uma das mãos enquanto segura uma fatia de pizza na outra. Ler é seu hiperfoco mas rir de si mesmo é seu verdadeiro dom.
  • Coluna do Aspie: Especial Dia das Mães


    Ela criou três filhos. Três crianças autistas numa época onde não se falava de autismo. O mais velho vomitava o tempo todo, o segundo chorava sem para e o mais novo ainda não falava, mesmo com idade para dizer muito mais do que apenas um simples "mamãe".

    Os três bem diferentes entre si mas com algo em comum: não eram como as outras crianças. Lembro que um dia desses, não faz muito tempo, perguntei à minha mãe se ela não notava que éramos diferentes. Inocência minha achar que não... Ela notava, claro que notava, minha mãe percebe tudo! Ela respondeu que sim, claro! Mas que ela nos levava até os médicos toda semana e ninguém sabia dizer o porquê de tal diferença...

    "Cada criança tem seu tempo", "é coisa de sua cabeça", "tá procurando problema"... Quantas frases desse tipo ela ouviu e fico pensando quantas dessas frases são ditas ainda hoje. Mas mãe sabe e a minha sabia..

    Ela não podia nomear a condição dos três filhos pois nem mesmo os médicos da época o faziam. Mas criar com maestria, isso ela podia e fez!

    Ela nos ensinou tudo que sabia e podia. Teve que aprender a nos ver crescer sem receber muitos abraços pois, nenhum dos três era muito dado a abraçar. Não teve muitas apresentações na escola para ir porque não participávamos de quase nenhuma e também não foi em muitas formaturas...

    Aprendeu que a dificuldade dos filhos em demonstrar os sentimentos não era o mesmo do que não sentir. Sempre soube deixar claro o quanto gosta dos filhos e apesar das nossas características que poderiam facilmente serem confundidas com frieza, soube nos mostrar que compreendia o quanto era admirada.

    Eu disse antes que ela não podia, na época, nomear a condição dos filhos, porém ela fez algo muito maior. Ela ensinou a condição do amor!

    Feliz dia das mães todos os dias. Eu te amo 💗


    Um abraço do Aspie e continuem seguindo o @aspiesincero no Instagram e mandando suas sugestões, perguntas e dicas de temas para a coluna. 

    Sobre o autor: @aspiesincero é codinome de um autista adulto que através de memes bem humorados busca propagar informações, conscientizar e tornar cada vez mais conhecido esse mundo do TEA. Gosta de escrever porque dá para fazer com apenas uma das mãos enquanto segura uma fatia de pizza na outra. Ler é seu hiperfoco mas rir de si mesmo é seu verdadeiro dom.
  • Coluna da Gabi: Uma autista na empresa

    Sabe aquele frio na barriga, aquele nervosismo bem na hora da entrevista de emprego? Sabe aquela vontade de sair correndo ao olhar em volta e perceber quantos candidatos estão ali competindo pela mesma vaga que você? Pois é, pouco mais de 1 ano atrás eu senti tudo isso e mais um pouco...

    Após ser dispensada em alguns processos seletivos, surgiu uma oportunidade que parecia surreal. Fui, mas fui sem esperanças, fui apenas por ir. Após realizar todos os testes, bem como a entrevista, já estava em casa refletindo sobre o que faria em seguida, e imagine qual foi minha surpresa ao receber a ligação informando que havia sido selecionada para a vaga! Um misto de espanto, alegria, medo... eu simplesmente não sabia o que estava sentindo.

    Com o processo de contratação finalizado, dei início a uma caminhada que não acreditava durar mais que o período de experiência proposto em contrato. As primeiras duas semanas foram horríveis. Todos sabemos que, independente do grau de autismo, todos no espectro precisam de adaptações nos mais diferentes aspectos, uma vez que todos somos diferentes e, por isso, temos necessidades e dificuldades distintas. Eu era uma novidade para a equipe, a qual ainda não estava preparada para lidar comigo. Foram momentos difíceis, dias longos e horas intermináveis. Eu era agitada, não conseguia me adequar ao ambiente, não permanecia sentada por mais de 10 minutos seguidos - em decorrência da agitação e impulsividade presentes em vários autistas - e não tinha segurança para realizar nenhum procedimento, embora soubesse que dominava a maior parte deles.

    Exausta de tentar e com 3 semanas de empresa, optei por solicitar meu desligamento da mesma. Contudo, fui encorajada a tentar novamente e assim o fiz. Cabe lembrar, que o incentivo é de extrema importância no processo de aprendizagem e adaptação dos indivíduos no Espectro. Quando cogitava a possibilidade de desistir, me lembravam que eu estava indo bem e que poderia continuar. Aos poucos e com bastante esforço de ambas as partes, fui me acostumando com a rotina, com os procedimentos, e o mais importante: a empresa foi se acostumando comigo, adaptando o que era necessário. Até mesmo evitavam barulhos desnecessários porque sabiam que poderia me incomodar, dada a sensibilidade auditiva presente no TEA.

    As horas, que antes delongavam-se, começaram a passar em um “piscar de olhos”, de maneira célere. Comecei a conhecer outros setores, outras pessoas e, quando percebi, já conhecia toda a empresa, onde era aceita exatamente como eu era. Confesso que amava alguns setores específicos, onde passava horas e horas após bater ponto, e nos quais conheci pessoas que me ensinaram inúmeras coisas e que se permitiram aprender sobre o autismo apenas para que pudessem me acolher. Assim, as 6 horas diárias não eram mais suficientes, eu não queria sair de lá.

    Após 10 meses, para meu melhor desempenho, foi necessário que eu fosse remanejada para outro setor. Equipe diferente, prédio diferente, trabalho diferente... Sim, tudo isso me assustou e novamente pensei em desistir. Foi quando, mais uma vez, me lembraram que eu tinha conseguido até ali, o que me deu forças para tentar. Para minha surpresa, a equipe parecia já estar pronta para me incluir. Alguns problemas em um primeiro momento como era de se esperar, mas nada sério. Continuaram adaptando tudo para que eu me sentisse bem, desde o meu horário, até o trabalho desenvolvido.

    O autismo se tornou uma causa coletiva na empresa.

    E como estamos hoje em dia? Sigo na mesma equipe, a qual segue se adaptando a cada dia. Respeitam minha acuidade auditiva, respeitam meu tempo, respeitam quem eu sou. Reconheço que trabalhar em uma empresa tão inclusiva é um privilégio que a maior parte dos PCD’s não tem, e serei eternamente grata por estar ali. Hodiernamente, seguimos na luta pela inclusão - e não apenas pela integração - no mercado de trabalho e na sociedade como um todo.​

    Nota da Dani: A Gabi não quis se expor com uma foto de rosto e a vontade dela foi respeitada. A foto no post é da primeira mesa da Gabi na empresa.

    Sobre a autora:
    Meu nome é Gabrielle Luiza, tenho 20 anos, diagnosticada com autismo atípico leve para moderado. Gosto de ler sobre vários temas, especialmente sobre filosofia, de trabalhar e ouvir música clássica. Quero ser advogada e atuar diretamente na defesa dos direitos das pessoas com deficiência. Sou muito boa com números e obviamente péssima com apresentações. Até mais!


  • Coluna do Aspie: Reflexões em tempos de bullying


    Reflexões em tempos de bullying 

    Olá amigos,


    O assunto a ser tratado hoje é algo que infelizmente nos deparamos todos os dias: Preconceito.

    Como todos sabem, ou pelo menos como todos nós que lutamos pelas causas do autismo estamos trabalhando para isso, abril é o mês que marca a conscientização sobre o TEA. Logo nesse momento tão importante nos deparamos, mais uma vez, com um episódio de intolerância sem tamanho que veio a afligir tantas famílias. Duas pessoas, os quais não vou identificar aqui pois o intuito não é dar visibilidade a esses cidadãos e sim trazer uma reflexão sobre o ocorrido, rasgaram palavras de ódio e desrespeito não apenas contra pessoas autistas, mas também à pessoas com síndrome de down e até mesmo (pasmem) às crianças que lutam contra o câncer, durante uma apresentação em um show de comédia diante de uma plateia lotada.

    Para que possamos pensar um pouco sobre tudo isso, permitam-me aqui expor uma definição que pode nos ajudar a entender a situação.

    Normose: refere-se a normas, crenças e valores sociais que causam angústia e podem ser fatais, em outras palavras, comportamentos normais de uma sociedade que causam sofrimento e morte. Nesse sentido, é comum justificar a manutenção de um comportamento não saudável por ser normal, algo que "todo mundo faz".

    Agora vamos ver o porquê dessa justificativa ser uma falácia e não se sustentar, trazendo apenas malefícios a sociedade quando tal comportamento é perpetuado.

    Em uma analogia simples, imaginem, ou para quem nasceu na década de 80 ou antes apenas lembrem, como as pessoas fumavam em ambientes públicos e fechados, como restaurantes, aviões, empresas, etc. Ou pensando em outro exemplo prático, como não se usava capacete para andar de motocicleta pois não existia obrigação para tal ato. Podia-se afirmar até hoje que, seguindo os exemplos citados, a proibição de fumar naqueles locais ou obrigar o uso do capacete, seriam atos de cerceamento de liberdade ou em outras palavras formas de privar o cidadão de escolhas individuais, afinal, se alguém não gosta de cigarro que não vá onde estão os fumantes ou que ao não fazer uso do capacete, só quem se prejudica é a própria pessoa que fez a opção de não usá-lo.

    Mas o fato é que a sociedade muda e mais importante, ela tem que mudar! Difícil encontrar hoje quem defenda fumar ao lado de uma criança num restaurante ou que não entenda que acidentes de trânsito são questões de saúde pública e que tanto proteger-se como também proteger outras pessoas diz respeito a todo mundo e não apenas a si próprio.

    Indo um pouco mais longe na história (nem tão longe assim), podemos citar a escravidão, onde tratar outro ser humano como inferior e obrigar a servir, em condições degradantes, os mais abastados da sociedade era considerado “normal”.

    Se até hoje mantivéssemos o conceito rígido de aceitação dessas situações e de tantas outras que poderia citar aqui, estaríamos vivendo em um mundo sombrio. Porém, a humanidade, tanto numa questão individual como coletiva tem a obrigação de crescer, melhorar, evoluir!

    Claro que essa evolução não acontece da noite para o dia e por isso é necessário que hajam vozes que se levantam e se oponham as normoses do cotidiano. Muito comum a justificativa das pessoas que cometem atos repugnantes como foi o caso desses dois “comediantes” de que hoje em dia é tudo “mimimi”, que o politicamente correto é chato ou que isso é arte e liberdade de expressão.

    Muitos escravagistas diriam que era “mimimi” de negros reclamarem dos seus “donos” sendo que os seus senhores lhe davam tudo que precisavam e ainda iam mais longe dizendo que abolir a escravidão só levaria as pessoas a morte por fome. Reclamar do politicamente correto também não serve pois podemos apenas esquecer o termo politicamente e lembrar que existe o correto e o incorreto e nunca será normal agir de maneira preconceituosa com alguém, independentemente de qualquer contexto. Reforçando, o mundo muda, tudo e todos mudam juntos. Piadas que eram aceitas há 10 ou 20 anos, hoje não são mais, assim como todas essas situações que foram citadas durante todo esse texto, e afirmar que sempre foi assim não cabe pois se não o bom senso é capaz de permear certas atitudes, a lei é! E nunca é demais lembrar que é crime o preconceito contra deficientes, assim como qualquer tipo de preconceito.

    Claro que não esqueci aqui de falar sobre arte ou liberdade de expressão. Fazer arte é lindo e ninguém é contra isso. Há até quem diga que a arte não tem limite e digo a todos que concordo plenamente. Não se pode limitar a arte nem tampouco o artista, mas o fato aqui é que a apresentação dita comédia que foi exposta, não se trata de arte e é preciso definir bem o que é ser um artista. A arte visa trazer um bem a sociedade e não vi em nenhum momento de tal apresentação algo que trouxesse benefício, pelo contrário, vi apenas maldade despejada sem a mínima consideração pela condição humana.

    Nunca, em nome da arte, pode-se passar por cima da dignidade. Imagine que numa peça de teatro fosse permitido que uma pessoa de 40 anos fizesse sexo explícito, ou melhor dizendo já que não existe sexo com crianças, abusasse de uma pessoa de 8 anos de idade. Seria arte ou pedofilia? Então o que se busca limitar aqui não é a arte e sim a virtude do que é ser humano.

    Por fim, mas não menos importante, que fique claro que não sou nem nunca serei contra a liberdade de expressão. Sempre apoiarei o direito de qualquer um se expressar. O que pondero aqui é o ato de que ter liberdade para expressar não extingue o fato de que a pessoa tem que responder pelo que expressou dentro dos critérios da lei.

    Para concluir, não posso deixar passar batido os risos que se ouviam do público presente na apresentação ao fim de cada fala maldosa desferida. O que mais explica, senão a normose, o fato de duas pessoas estarem cometendo um crime de preconceito e intolerância e uma plateia toda gargalhando, sem que ninguém levante e contraponha-se?

    Normose é um termo que foi forjado por Jean Yves Leloup (filósofo) na França, e por Roberto Crema (sociólogo, psicólogo e antropólogo) no Brasil.

    Um abraço do Aspie e continuem seguindo o @aspiesincero no Instagram e mandando suas sugestões, perguntas e dicas de temas para a coluna. 

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    Guia Prático para autistas adultos: Como não surtar em situações do cotidiano.

    Sinopse: Neste guia você não vai encontrar técnicas ou fórmulas mágicas, pois o que escrevi aqui são experiências reais e servem de base para que você entenda como meu cérebro autista funciona na prática. Aqui você será espectador e verá a vida através do olhar de quem sente na pele as mesmas sensações que você. Sempre com leveza e bom humor te ensino a não surtar nesse mundo onde a gente se sente um E.T.

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