Vida de Autista

Eu sou Autista

Daniela Sales


Eu sou a Dani e no final de 2017 ouvi da minha terapeuta o diagnóstico que mudou minha vida. Fui diagnosticada com TEA - Transtorno do Espectro Autista, no meu grau antes chamado Síndrome de Asperger.
Após o diagnóstico, aos 42 anos de idade, finalmente conheci a mim mesma e então resolvi abraçar a causa do autismo na vida adulta. Existem milhares de autistas sem o diagnóstico sofrendo nos consultórios, usando antidepressivos, ansiolíticos e toda e qualquer droga que torne a vida mais leve.
No Instagram, no YouTube e aqui no site conto um pouco das minhas experiências e descobertas sobre esse mundo tão fascinante do autismo. Ser diferente é normal :)

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A consultoria é feita por mim, autista, grau leve com formação em Administração de Empresas e ampla experiência no mercado. É voltada para microempresas, empresas de pequeno porte e MEI (Microempreendedor individual) de qualquer segmento de atuação. Um grande diferencial é minha visão como profissional e empreendedora dentro do TEA. Essa visão é ideal para o autista que deseja se tornar empreendedor ou que já tem uma empresa ou ainda para a empresa que deseja incluir o autista como público alvo ou que tem ou quer ter profissionais autistas nas vagas PCD. Palestras de conscientização em empresas ou escolas e treinamentos para inclusão do profissional autista nas organizações.
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  • Coluna do Pádua: ATYPICAL


    ATYPICAL

    É interessante como a frase “nada como um dia após o outro” faz tanto sentido em algumas situações. Neste caso, acredito ser possível dizer, parafraseando a máxima original, “nada como uma série após a outra”. E nesse contexto, é importante salientar a relevância de conteúdos como a série “Atypical” para a discussão sobre neuro-divergência nos dias de hoje.

    Explico: no mês anterior, escrevi para este mesmo site uma ácida crítica sobre “Os treze porquês”, uma série que incorria em sérios problemas estruturais sobre transtornos mentais e neuro-divergência como um todo. “Atypical”, porém, vai em uma direção completamente distinta. A série, também produzida pela Netflix e estrelada pelo ótimo Keir Gilchrist, traz a história de Sam Gardner, um jovem adolescente autista, e os desafios que ele enfrenta junto a sua família. O convívio familiar de Sam passa por alguns problemas, como a superproteção de sua mãe, as gozações de sua irmã (ainda que eventualmente ela o proteja) e, por vezes, o despreparo de seu pai para lidar com suas características. Inicialmente, Sam é escrito como o típico protagonista autista de qualquer produto desta seara: é estereotipado, cheio de manias quase caricatas e extremamente obsessivo com rituais sociais e comportamentos específicos. Vale ressaltar que nem todo autista possui esses estereótipos.

    No decorrer da série, vemos Sam se defrontar com várias situações com potencial para ativar fortemente seus gatilhos, e de fato eles são ativados com força. Porém, ao invés de “Os Treze Porquês”, o roteiro de “Atypical” é bem sofisticado, apresentando os problemas ao personagem de uma forma realista e tátil, mas sem ser perturbadora ou sádica para com ele ou o espectador. Tanto Sam quanto sua família têm a oportunidade de aprender com esses problemas de maneira razoável e pedagógica. O mais interessante é que também podemos ver a evolução de alguns personagens que de alguma forma são importantes na vida do protagonista, tanto de seu seio familiar quanto de fora dele. Seu pai passa pelas cinco fases do luto emocional, propostas por Kubler-Ross (negação, raiva, barganha, depressão e aceitação). Sua mãe, superprotetora, aprende aos poucos a deixar o filho caminhar com as próprias pernas. Também vemos um arco de desenvolvimento mais complexo da irmã de Sam, que teve a vida quase inteira dedicada a cuidar de seu irmão, mas que quer seguir seu próprio caminho. Ao decorrer da série, ela aprende a conciliar as duas responsabilidades de maneira saudável, fazendo amigos e companhias edificantes no processo. Temos também a psicóloga do garoto, Julia, que o auxilia em seus processos de autoconhecimento e autonomia em relação ao mundo que o cerca, mas que acabou também desenvolvendo um arco dramático próprio em relação a ele, o que leva a consequências inevitáveis sobre os caminhos de ambos os personagens. E temos, por fim, Zahid, seu amigo e colega de trabalho, e Paige, uma garota por quem Sam se apaixona. Ambos o ajudam em seu desenvolvimento quanto às relações amorosas.

    O fato é que “Atypical” não é uma série isenta de defeitos, por sua intensa estereotipia em relação ao protagonista e a alguns dos personagens que compõem seu círculo de convivência social. Contudo, sua elevada disposição para discutir os problemas pelos quais os autistas podem passar na sociedade é altamente edificante para propor soluções sobre como a sociedade pode aprender a lidar melhor com a neuro-divergência. Um conteúdo fenomenal e digno de atenção não apenas de neuro-divergentes, mas também de todos os de alguma forma interessados em saúde mental, como famílias e terapeutas.

    Nota: 9,0

    Sobre o autor:
    Meu nome é Pádua, tenho 26 anos e sou autista. Sou fotógrafo e amo o que faço! Nas horas vagas, gosto de escrever, pois considero uma atividade super divertida e produtiva. Aproveitem a coluna sem moderação!

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  • Coluna do Pádua: A polêmica série “Os Treze Porquês”


    A polêmica série “Os Treze Porquês” 

    A série “Os Treze Porquês” (13 Reasons Why, no original) é hoje um conteúdo singularmente polarizador. Inicialmente logrando muito sucesso entre todos os tipos de público, neuro-típicos, neuro-divergentes e até mesmo profissionais da saúde mental, a produção da Netflix causou inúmeros debates sobre a conscientização de problemas mentais, como ansiedade e suicídio. 

    Não foi para menos. A série de fato trazia uma aparente preocupação para com os neuro-divergentes e com isso, amealhou um sucesso inquestionável de público. Some-se a isso uma bem inspirada produção e fotografia e você tem um conteúdo aparentemente inspirador, que parece realmente querer ajudar as pessoas.

    Infelizmente, na minha opinião, só parece. 

    Com a devida vênia, eu vos digo, companheiros: “Os Treze Porquês” é uma cilada da pior espécie. A série descumpre todos os manuais de psicologia contemporânea. Na trama, a personagem principal Hannah Baker cria um contexto de vingança pessoal através do suicídio, não apenas assombrando todos aqueles que ela julga responsáveis pelo ocorrido, mas também torturando psicologicamente Clay, o co-protagonista, revelando apenas na décima primeira fita que o garoto não tinha culpa alguma, permitindo que o mesmo fosse atormentado por crises de consciência durante praticamente todo o processo. Há no mínimo duas cenas de estupro na primeira temporada, e uma explícita na segunda, com um garoto sendo violentado sexualmente com um teor gritante de detalhes. Há ainda uma cena de suicídio EXPLÍCITO ao final da primeira temporada e uma cena excruciante de incitação ao suicídio na segunda, onde um garoto encontra uma bala de revólver (!!!!) em seu armário da escola.

    Diante de todas essas barbaridades, o resultado não poderia ser diferente: profissionais da saúde, entre psicólogos e psiquiatras, não apenas fizeram o óbvio de condenar as chocantes e explícitas cenas acima referidas (o que levou a Netflix a excluir a famigerada cena de suicídio), mas também criticaram o fato de a série romantizar o suicídio, flertando com a narrativa de que Hannah poderia, no final das contas, estar agindo de maneira vilanesca ao fazer de seu suicídio, em última instância, um longo calvário para todos os que eram por ela considerados de alguma sorte culpados. Houve entre os personagens, certamente, quem merecesse algo assim? Pode até ser, se pensarmos sobre as circunstâncias. Mas isso não justifica de forma alguma que uma garota ou quem quer que seja faça de seu suicídio uma opera de vingança póstuma.

    Mas por que, afinal de contas, a tal “preocupação” com problemas mentais de “Os Treze Porquês” não passa de bravata? 

    Simples. Porque a cada episódio, a alegada preocupação é dissolvida no mar de barbaridades gráficas que a série mostra. Conteúdos acionadores de gatilhos para neuro-divergentes são disparados a cada cinco minutos. Além do mais, cada um dos treze episódios de cada temporada é imenso, com ritmo lento, fazendo a visualização da produção ser ainda mais excruciante para além da esfera da saúde mental. 

    Até quando a fetichização dos problemas mentais vai reinar incólume às custas da vida de pessoas reais, que têm esses problemas e que com isso acabam sofrendo tanto? O percentual da sociedade que consome “Os Treze Porquês” é expressivo (não à toa a série tem atualmente três temporadas e uma quarta está confirmada) e é a mesma que acaba tornando pior o mundo para os neuro-divergentes que eventualmente diz querer proteger. É a mesma que ignora autismo em adultos e as enormes taxas de depressão e suicídio na vida real.

    Por outro lado, há conteúdos superdivertidos, saudáveis, relevantes e que não deixam de ser eloquentes, como “Atypical”, também disponível na Netflix, que têm ganhado força nos últimos anos. “Atypical” pode ser sobre um garoto autista, suas conjecturas e incertezas acerca do mundo em que vive, mas é um ótimo exemplo de como produzir um debate consciente e firme sobre neuro-divergentes em geral, sem deixar de lado a delicadeza e a serenidade necessárias para tanto.

    Ser autista ou portador de qualquer outra condição neuro-divergente neste mundo é muito difícil. À luz dessas circunstâncias, antes de chocar e atentar a paz dos sentidos do público, devemos ter empatia com ele e tratá-lo com firmeza, mas sem deixar de lado a delicadeza.

    Nesse âmbito, ou se é “Atypical” ou se é “Os Treze Porquês”.

    Sobre o autor:
    Meu nome é Pádua, tenho 26 anos e sou autista. Sou fotógrafo e amo o que faço! Nas horas vagas, gosto de escrever, pois considero uma atividade super divertida e produtiva. Aproveitem a coluna sem moderação!



  • Coluna do Aspie - As crônicas de Spinner

    Olá amigos!

    O ano é 2017, descobri que tenho um filho autista. Meus dois filhos mais velhos são normais, mas o mais novo está sofrendo desse mal. Não está sendo fácil, são muitas informações por toda parte, muita coisa nova para assimilar.

    Tudo está sendo muito estressante, estou me acabando em nervos. Quero ajudar o meu filho e estou procurando o melhor para ele. As pessoas não aceitam bem quem é estranho e não quero que ele sofra.

    Ele tem comportamentos esquisitos, fica mexendo os dedos sem parar e às vezes, quando o ambiente agita, ele fica balançando para frente e para trás, aí depois ele pára e volta a ficar calmo e tranquilo. Muito difícil fazer esse comportamento cessar e acho um pouco feio quando ele faz isso. E as pessoas não aceitam bem quem é estranho!

    Daqui a pouco começam as terapias, espero que ajudem ele a parar com essas manias que todo mundo estranha. Ele também não brinca direito, usa os brinquedos de forma diferente, ao invés de empurrar o carrinho fica girando as rodinhas. As terapias hão de ajudar nisso também. Estou muito estressado, espero que algum dia ele consiga se portar o mais próximo da normalidade possível.

    Ainda bem que essa semana, passando pela banca de jornais me deparei com um objeto curioso. Chama Fidget Spinner segundo o rapaz da banquinha. Perguntei pra que servia e ele disse que estava muito na moda, servia para acalmar... E não é que é bom mesmo! Comprei um para mim e foi ótimo, até comprei para meus filhos mais velhos também que estavam um tanto quanto agitados com toda essa situação.

    Está todo mundo usando, em todo lugar que olho tem alguém com um na mão. Incrível como algo tão repetitivo pode ajudar tanto, afinal é muito normal que fiquemos calmos com algo tão simples e prazeroso. Quisera eu ter inventado isso antes, pois me parece claro que esses rodopios acalentam.

    Mas agora chega de conversa que meu caçula vai entrar na terapia. Uma hora aqui esperando, mas farei o possível para ajudá-lo. Espero o tempo que for preciso! Ainda bem que tenho meu Spinner aqui para me acalmar.

    FIM

    O Fidget Spinner é um Stim Toy que foi criado na década de 90 visando ajudar crianças autistas e com TDAH. Acabou viralizando nos EUA e em vários países do mundo como um brinquedo "normal" chegando ao Brasil por volta de 2017 onde virou uma verdadeira febre entre adultos e crianças.

    Difícil não notar que quando algum comportamento se espalha passa a ser aceito como dentro de um padrão de normalidade enquanto o que não nos parece típico é visto com estranheza.

    Os Stims são importantes para os autistas e antes de procurar reprimir esse comportamento devemos pensar se a intenção é acabar com algo realmente prejudicial à pessoa autista (e existem Stims prejudiciais sim que devem ser substituídos), ou se estamos apenas querendo colocar a pessoa dentro de um padrão de normalidade para satisfazer um desejo nosso em detrimento ao bem estar da criança.

    Enfim, espero que esse texto provocador ajude com algumas reflexões. Abraços do Aspie e continuem enviando sugestões e perguntas ao @aspiesincero no Instagram. Até a próxima pessoal!


  • Coluna do Pádua: Crítica do filme As cinco pessoas que você encontra no céu


    CRÍTICA

    As cinco pessoas que você encontra no céu
    (Título original: The Five People You Meet in Heaven)

    O cinema é uma arte diversa e cativante. Sua capacidade de envolver o público passa tanto pela execução das características técnicas do projeto – isto é, produção, roteiro, atuação etc - quanto pelas intenções por trás das mentes criativas por trás de cada filme. Existem filmes que capricham no aspecto técnico e se saem tão bem que arrancam emoções diversas do espectador (Mad Max: Estrada da Fúria, por exemplo), ou até os que conseguem extrair o máximo de ambos os aspectos (o caso de Coringa, o último longa que analisei para o site).

    Quanto ao presente filme, fica bem nítido que tudo gira em torno das ideias do roteirista e do seu objetivo no final das contas. E isso não é surpreendente, uma vez que “As cinco pessoas que você encontra no céu” é um telefilme (isso é, um filme feito para a televisão) roteirizado por Mitch Albom, a mente por trás de um livro de mesmo nome. Lançado em 2004, um ano após o lançamento de seu homônimo original, este filme tem nuances típicas de um filme lançado para as telinhas e isso pode deixar a desejar um pouco para públicos acostumados a filmes lançados para cinema. O filme é longo e poderia ser um pouco mais resumido. Mas para mim, que já vi obras como “It – uma obra prima do medo” (1990) e “Rose Red – A Casa Adormecida” (2002) a experiência não chegou a incomodar.

    O roteiro é interessante, principalmente pela sua não-linearidade, isto é, ele não segue uma história em linha reta do começo ao fim; por outro lado, sugere ao espectador, através dessa dinâmica diferente, uma nova perspectiva sobre a vida e a morte, e nisso se sai muito bem. Porém o autor pecou ao restringir bastante as propostas de reflexão de seu roteiro, sem deixar tanto espaço no próprio filme para o espectador pensar fora da caixinha. Há também as narrações prolixas e os diálogos, muito expositivos, que contribuem para o fechamento da ideia do filme em si mesma. Contudo, essas são nuances pequenas perto de alguns grandes acertos técnicos do filme, que contribuem de maneira relativamente sutil com a mensagem proposta. Além disso, a forma como cada espectador apreciará o filme a partir de suas próprias experiências pessoais poderá fazer com que tal significado se dilua em meio a várias possíveis reflexões, que podem ocorrer em paralelo à ideia específica do filme, para a qual nos voltaremos agora.

    O dia de finados, celebrado anualmente no dia 2 de novembro em nosso calendário, é uma data na qual algumas religiões, e em especial a católica, homenageiam os entes queridos que já faleceram. Para os católicos, é comum a crença de que o sofrimento é uma virtude, e assim essas homenagens geralmente são prestadas não apenas com deferência, mas também com certa melancolia. Falar dos mortos parece sempre um tabu e a morte, apesar de certa e inevitável para todas e todos, é sempre vista com receio.

    E é aqui que temos um dos propósitos mais fortes do longa. Albom propõe, em sua obra, um olhar positivo e otimista sobre a morte e tudo o que ela representa. Seguindo uma visão cristã dos conceitos de Céu e Inferno, ela nos mostra o protagonista Eddie “Manutenção” (muito bem interpretado por Jon Voight) a partir do momento de sua morte e sua jornada em busca das cinco pessoas que ele deveria encontrar no Céu.

    A partir dali o espectador é convidado a mergulhar, junto com Eddie, em uma resignificação da vida a partir do aprendizado do protagonista sobre as vidas que ele tocou, direta ou indiretamente e de forma positiva ou negativa. Cada uma dessas pessoas lhe aparece para ensinar, uma por uma, valiosas lições sobre variados aspectos inerentes à vida, como o valor do amor, do sacrifício e do perdão, tudo como parte de uma simples, porém singular e poderosa mensagem: sua existência, por mais simples que tenha parecido, teve um significado importante para todos os que ela passaram.

    Essa é uma perspectiva bem positiva sobre a vida, mas vai além. Essa forma de ver a vida possibilita todo uma resignificação sobre o que é a morte e o que ela representa para nós. Se geralmente temos um olhar pessimista e desalentador sobre a morte, este projeto traz um olhar extremamente otimista, não apenas nas ideias explicitadas pelo roteiro, mas também no visual do filme. A fotografia escura e fria parece mostrar como o personagem vê a si mesmo em vida, algo simples, fracassado e sem propósito, com certa nostalgia dos tons meio amarelados nos flashbacks. No céu, entretanto, é tudo muito colorido e vibrante, com planos de câmera que engrandecem a vida e obra do protagonista. Aos poucos, vamos entendendo que o filme nos propõe, finalmente, que a morte pode ser encarada com otimismo, suavidade e, por que não, até com um pouco de... humor?

    O projeto tem um viés religioso muito explícito, principalmente nas representações de céu e inferno. Mas, curiosamente, aqui temos pouco sobre o Deus cristão propriamente dito. Isso torna este longa muito mais aberto a interpretações outras que não o significado estritamente religioso e permite ainda mais ao espectador imergir na narrativa com base nas próprias vivências. Para mim, que sou ateu, o filme trouxe sensações mistas. Se por um lado não tenho a menor afinidade com os conceitos metafísicos/teológicos de céu e inferno, por outro me ocorreram diversas catarses pessoais, principalmente no desfecho. A conclusão é que não é necessário ser religioso para apreciar este filme e absorver a experiência que ele proporciona. Na verdade, talvez a experiência possa vir até a incomodar alguns religiosos, pela forma positiva e até engrandecedora com que ele retrata o post mortem.

    Contudo, a quem se permitir experimentar este longa, uma bela jornada de resinificação da vida e da morte, da morte e da vida, lhe aguarda.

    Nota: 8,0

    Sobre o autor:
    Meu nome é Pádua, tenho 26 anos e sou autista. Sou fotógrafo e amo o que faço! Nas horas vagas, gosto de escrever, pois considero uma atividade super divertida e produtiva. Aproveitem a coluna sem moderação!

  • Coluna do Aspie: Autismo tem graça?

    Olá amigos!

    Esses dias fui questionado no Instagram por alguém que me criticou por "brincar" com o Autismo e resolvi falar um pouco sobre isso e sobre as intenções por trás de tal "brincadeira". Apenas para contextualizar, a pessoa que fez tal crítica é neurotípica e não foi grosseira ou ofensiva em nenhum momento, apenas queria entender se a página do @aspiesincero não poderia soar ofensiva a alguém.

    Primeiro vamos a alguns fatos importantes e um tanto quanto incômodos. Pesquisas recentes mostram que autistas estão morrendo muito mais cedo do que a população em geral. As duas principais causas de óbito em adultos são epilepsia e suicídio. 

    Em relação a epilepsia o que se pode fazer é buscar os tratamentos disponíveis e com eficácia comprovada cientificamente para sanar ou ao menos amenizar a situação.

    Agora pensando um pouco na outra causa de morte precoce, vou falar do propósito das piadas do Aspie Sincero. Todos sabemos das dificuldades inerentes ao espectro devido as questões diretamente relacionadas ao autismo, bem como as questões ligadas a falta de aceitação, inclusão e entendimento por parte da sociedade. Nesse sentido, é de extrema importância que se tente amenizar as situações que possam acarretar em fatores que levem a uma tristeza severa, baixa auto estima e até mesmo depressão.

    Seguindo nesse raciocínio, é primordial que se possa mostrar também os lados positivos do TEA, saber rir das situações que se dão em ocasião das nossas características, promover nossas qualidades e elevar e ressaltar um orgulho de ser como somos buscando um caminho de aceitação tanto da população em geral, como também a auto aceitação.

    Quando faço uma piada, uma brincadeira, mostrando tanto as dificuldades como as qualidades de maneira bem humorada, eu espero que as pessoas autistas se reconheçam, se identifiquem e se divirtam e que as pessoas neurotípicas, pais, parentes e todo mundo aprendam, entendam, informem-se e aceitem as características autísticas.

    Buscar amenizar as dificuldades, ressaltar as potencialidades sem subjugar nenhuma das duas coisas é algo que, de forma leve, o humor pode proporcionar. Sempre vi o humor como caminho para promover o orgulho de ser o que somos, ou seja, o ORGULHO AUTISTA!

    E antes que surjam outras críticas, aproveito para dar minha visão e esclarecer que o orgulho autista não visa camuflar os fatores limitantes que estão presentes no autismo e que sentimos na pele todos os dias, mas sim ressaltar que ainda assim podemos ter uma vida plena, sermos felizes e mostrar ao mundo várias qualidades que possuímos e que podem ser sensacionais se bem aproveitadas.

    Claro que não tenho a pretensão de achar que alguns memes possam solucionar ou explicar toda a complexidade do TEA, mas se puder dar uma pequena contribuição, amenizar o sofrimento de alguém, alegrar o dia de alguma pessoa, trazer alguma informação nova ou reforçar alguma informação importante, fazer alguém sentir que não está sozinho nesse mundo e que existem outras pessoas com semelhanças que mostrem que a pessoa não é apenas um estranho num mundo hostil, já me dou por satisfeito.

    Caso algum autista sinta desconforto com alguma postagem, pode me procurar e conversaremos. Caso algum neurotípico sinta algum desconforto, claro que sempre estarei aberto a conversas também, mas só peço que primeiro verifique se tal incômodo não se dá por que você foi retirado de sua zona de conforto e foi levado a pensar sobre determinada situação da qual já tinha uma opinião formada e nem mesmo sabia o porquê.

    Abraços do Aspie e continuem enviando sugestões e dúvidas para o @aspiesincero no Instagram!

    Sobre o autor: @aspiesincero é codinome de um autista adulto que através de memes bem humorados busca propagar informações, conscientizar e tornar cada vez mais conhecido esse mundo do TEA. Gosta de escrever porque dá para fazer com apenas uma das mãos enquanto segura uma fatia de pizza na outra. Ler é seu hiperfoco mas rir de si mesmo é seu verdadeiro dom.
  • Coluna do Pádua: Crítica do filme Coringa


    “Espero que minha morte faça mais centavos do que minha vida.”

    Não há outra forma de começar essa crítica senão falando que “Coringa” é uma obra de arte fenomenal. Fenomenal mesmo, em todos os possíveis sentidos da palavra. Parte pelos feitos que consegue alcançar em todos os aspectos de produção e arte, parte pelos fenômenos reacionais propriamente ditos que o projeto consegue extrair de seu público. É um filme que consegue extrair da plateia as mais diferentes reações e sensações.

    O roteiro dá uma aula de arcos dramáticos a tal ponto que praticamente não sentimos a mudança de atos, exceto por alguns momentos-chave muito específicos e marcantes, que envolvem diretamente as mudanças de personalidade e comportamento do protagonista. Todo o desenvolvimento, ainda assim, é incrivelmente gradativo e se dá tão naturalmente que não é difícil o espectador por muitas vezes se pegar cheio de empatia para com as dores existenciais e até por algumas atitudes de Arthur Fleck. 

    Minha preocupação antes do filme seria sobre uma eventual romantização ou pior, transformação do vilão em herói pelos olhos da direção. Felizmente, essa preocupação não se concretizou. A direção de Todd Phillips é perfeita e dá coesão a todo o projeto, elaborando toda a estrutura narrativa do filme, a meu ver, a partir de dois pontos sumariamente importantes: uma perspectiva equilibrada sobre as ações e reações do personagem: isto é, vemos um homem tendo uma vida ruim e dias terríveis. O diretor simplesmente nos mostra as consequências disso, tanto o agravamento dos problemas mentais de Arthur Fleck quanto o caos que ele acaba por provocar a todos à sua volta. Por outro lado, há também o olhar narrativo de Fleck sobre sua própria história e isso favorece a variedade de reações possíveis ao projeto como um todo; temos uma mudança gradativa do olhar do protagonista sobre si mesmo e isso faz o filme como um todo crescer. 

    E aqui temos um trabalho de fotografia extremamente eficiente, que começa em planos melancólicos e opressores sobre o protagonista, com cores esverdeadas que lembram algo sujo e mal-acabado, e vão se transportando gradativamente para tons mais amarelados e coloridos a medida que o olhar do personagem sobre si mesmo vai se tornando menos opressor e mais libertador, e aqui temos também planos engrandecedores e algo empoderadores. E não se enganem: isso é proposital da direção para simular não um apoio ao enlouquecimento de Fleck, mas sim sua própria perspectiva. Ele se vê assim. Ele quer se ver assim. E isso tem efeito na perspectiva do espectador.

    E isso nos leva à cereja deste delicioso bolo: as atuações. O trabalho de Joaquin Phoenix neste filme é simplesmente extraordinária. Seu Arthur Fleck é desajeitado e atormentado, mas ainda assim tenta ser uma boa pessoa, como vemos no começo até meados da metade do filme. Sua composição de personagem vai mudando gradativamente até chegar num ponto que, quando mal percebemos, já estamos vendo o Coringa propriamente dito em tela, pois é muito “natural” e verossímil a transformação. A partir do momento que vemos finalmente o Coringa, tudo é muito mais colorido, os planos o engrandecem e a performance do ator é ainda mais fantástica. A sensação que eu tinha durante a projeção era de que eu queria ver mais disso. 

    Mas há uma questão inquietante sobre as consequências desse projeto e é aqui que tudo se torna mais difícil nesse texto, pois há algumas camadas de subjetividade que não podem nem devem ser ignoradas. Afinal de contas, é possível simpatizar com o Coringa?

    Por um lado, temos todo o estudo de personagem feito em diversas camadas objetivas e emocionais; Arthur Fleck tem problemas graves. um distúrbio que o faz rir descontroladamente de forma involuntária e incompatível com seu estado emocional, sofre bullying gratuito, é debochado pelos colegas no trabalho e depois pelo comediante que ele enxergava quase como uma figura paterna. Há ainda a descoberta sobre os problemas mentais que sua mãe tinha, as agressões físicas a que ela o submetia junto a um namorado... Adicione-se ainda inúmeras camadas de desdém por parte da sociedade, o que vai desde a assistente social que não o escuta adequadamente quando ele fala de seus problemas até sua demissão do trabalho. Em suma: É uma mente muito ferrada, a do nosso protagonista. Aposto que cada um de nós, o público, se identifica com, pelo menos, um desses problemas pelos quais Arthur passa, pois são problemas endêmicos da sociedade que permanecem até hoje, ainda que, nos dias de hoje, haja muito mais cuidado e tentativas de sensibilização e conscientização de tais problemas.

    Quando o personagem vai se transformando em Coringa, porém, a armadilha do roteiro para o espectador dispara. Mas aqui a questão se torna ainda mais gritante: é possível se identificar com o Coringa? Para quem passou pelos mesmos problemas que ele e não consegue enxergar absolutamente nada além da catarse emocional e existencial provocadas por estas cenas, a resposta é sim, já que o personagem cresce a partir do momento que perde qualquer limiar de sanidade e razoabilidade e começa a enxergar sua vida, em suas próprias palavras, como uma “comédia”, em uma clara referência ao Comediante, da HQ “Watchmen”, de Alan Moore. 

    Contudo, de acordo com o escrutínio moral e ético que deveria ser comum a todos e universal, que pauta e permeia o pensamento civilizatório, a resposta óbvia é NÃO. Como dito antes, o filme mostra os problemas do personagem, que causam sua transformação e o que vemos são as consequências disso. Há a intenção de causar essa sensação de catarse quando o personagem se liberta? Como pegadinha do roteiro para fazer o espectador cair numa interpretação errada, talvez sim. Mas este não é um filme fácil de digerir ou contemplar e sua variedade de possíveis significados exclusivamente pessoais é uma das coisas que o tornam fascinante, mas perigoso. Não pelo projeto em si e sim por estas mesmas possíveis identificações, já que o Coringa não é um herói e nem mesmo um anti-herói; é um VILÃO. Todas as atitudes vingativas que ele toma a partir do momento em que se transforma são, sim, vilanescas, quer você queira, quer não.

    O que precisamos entender, no final das contas, é que a transformação de Arthur Fleck em Coringa não tem absolutamente NADA de comédia; ao contrário, é a verdadeira TRAGÉDIA do filme. Este não é um projeto feliz, nem humorístico; “Coringa” é um filme triste e que culmina numa tragédia. Uma tragédia moral. Uma derrota da sociedade como um todo. Uma sociedade que permite que seus membros se afundem a ponto de enlouquecer, está destinada ao fracasso. Pois uma hora, essa loucura se volta contra quem? A própria sociedade. O Coringa não é uma vítima: é um produto da sociedade. E é exatamente por isso que este filme é necessário. Pode não ser o filme que queremos, mas é um filme que, sem dúvida, precisamos. Chamar a sociedade para uma reflexão sobre desigualdades sociais e sobre como tratamos pessoas doentes é algo que faz com que o filme ultrapasse a contemporaneidade fictícia da telona para atingir justamente... os tempos atuais! Afinal, qual época foi tão repleta de discussões sobre saúde mental e desigualdades sociais como a que vivemos atualmente? 

    A questão que resta é... Quando vamos realmente aprender a... cuidar?

    Coringa é um filme fenomenal. Uma obra fascinante e necessária, que junta dois fenômenos em um e se torna um evento de debates sumariamente importantes sobre a sociedade.

    Nota: 10,0

    Assista o trailer oficial legendado clicando aqui


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    Guia Prático para autistas adultos: Como não surtar em situações do cotidiano.

    Sinopse: Neste guia você não vai encontrar técnicas ou fórmulas mágicas, pois o que escrevi aqui são experiências reais e servem de base para que você entenda como meu cérebro autista funciona na prática. Aqui você será espectador e verá a vida através do olhar de quem sente na pele as mesmas sensações que você. Sempre com leveza e bom humor te ensino a não surtar nesse mundo onde a gente se sente um E.T.

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